Em outro post o Max fez a seguinte pergunta:

“vc andou falando sobre feminismo, mulheres no corpo docente, preconceito. Em algum momento vc vai estudar os motivos que levam os EUA a serem praticamente o único país do mundo que já saiu da Idade do Bronze e que ainda não dá às mulheres algo básico como a licença maternidade?

Queria ver sua opinião sobre isso.”

E eu comecei a escrever uma resposta pra ele que, de tão grande, resolvi transfromar em post:

Meu mestrado é na area de Higher Education, e minha tese é sobre a pequena quantidade de mulheres no corpo docente nas areas de ciência e engenharia, em universidades de pesquisa nos EUA. Nela, eu exploro as razões pelas quais as mulheres, depois de vinte anos de crescente número em programas de doutorado, continuam sendo excluidas do circulo de professores universitarios, especialmente nos cargos mais altos. Eu passo muito de raspinha em direitos trabalhistas. O mundo acadêmico tem suas próprias razoes de ser e não obedece as normas do mercado de trabalho externo, portanto eu não estudo questões trabalhistas em geral.

Mas não é porque eu não estudo isso que eu nao tenho meus 2 centavos pra contribuir. Já pensei muito sobre essa questão e a minha conclusão vem de simples observação cultural e de conversas com outras mulheres. Eu penso que as mulheres americanas, como pioneiras em emancipação feminina, não desejam nenhuma forma de  tratamento especial por conta do seu sexo. As mulheres aqui parecem se orgulhar muito mais de terem voltado ao trabalho três dias depois do parto do que de terem tirado três meses de licença maternidade. Quando eu comento com alguém que no Brasil  eram quatro meses e agora é possivel tirar seis meses de licença, elas ficam maravilhadas, mas é muito como eu falei num outro post, sobre um assunto um tanto diferente: elas admiram, mas não parecem desejar.

O estigma de precisar de atenção especial ou de beneficios especificos é um fator que gera preconceito. No Brasil, muitas mulheres não são contratadas para determinados cargos se estiverem em idade reprodutiva, e isso é feito de uma maneira discreta ou não. Aqui nos EUA é proibido por lei perguntar na entrevista se a pessoa é casada ou se tem filhos. Portanto, eu penso que, em matéria de conquistas femininas, de luta contra o preconceito no local de trabalho, a licença maternidade pode representar um retrocesso pra muita gente aqui, porque pode gerar retaliações por parte do empregador.

Eu não me lembro de ter visto uma mulher grávida arrumar um emprego novo ou ser promovida no Brasil. Trabalhei numa organização onde se falava abertamente nas reuniões pra decidir contratação sobre: idade, sexo, estado civil, quantidade de filhos, possibilidade de ter filhos num futuro próximo e outros items cabeludos. Mas minha colega aqui nos EUA acaba de ser contratada pra um outro setor, numa posição acima da anterior, aos cinco meses de gravidez. Existe uma expectativa de que ela não vai sair de circulação por mais de dois meses. Um erro grave é que aqui, muitas vezes, a pessoa não tem opção nenhuma. Uma vez que o controle é transferido para as empresas,  isso significa que se a mulher desejar tirar um tempo de folga ela até pode mas, dependendo da empresa, vai ter que bancar do próprio bolso.

Quando eu penso em licença maternidade eu penso num direito legal de ter, uma opção fantástica pra quem realmente deseja isso. Mas, como um benefício praticamente compulsório eu não acho bom não. Seria legal se as pessoas pudessem tirar seis meses de licença entre o pai e a mãe. Daí cada casal que dividisse o tempo de forma conveniente pros dois, de acordo com a profissão de cada um. Não havendo casal, que a mulher pudesse tirar o tempo de folga como lhe fosse conveniente, nem sempre todo de uma vez.

Esse é um assunto muito sensível e, ainda que esse blog seja muito pouco popular, eu acredito que vai aparecer quem me acuse de ser contra a licença maternidade. Não sou contra a lei, mas sou contra a cobrança de que a mulher fique em casa e cuide do filho. E vamos lembrar que existem também pais solteiros. E vai ter quem me lembre que homem não amamenta, e eu vou dizer que tem muita mulher que também não o faz… ad infinitum.

About these ads