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Salvador 2008 001

“The salt child walked further and further into the water of the great Ocean, dissolving with each step, and at the end exclaimed: ‘Ah, now I know who I am!’”

Uma vez que eu ja estava na descida do abismo mesmo, nao adiantava procurar galhos onde me segurar. Eu sempre soube que, pra ter a oportunidade de voltar a tona, eu precisava descer ate o fundo. So de la conseguiria me impulsionar de volta a superficie.

E ao fundo eu fui, sentada no chao da cozinha, sozinha, derramando as minhas lagrimas todas, me sentindo a mais solitaria das criaturas, a mais vazia, a mais abandonada. O choro, uma forma de lavar de mim os sentimentos todos, e comecar de novo, limpa.

Carinho do marido, afeto da amiga ao telefone, nada me alegrava. Nao havia sinal de sorriso nos meus labios.

Mas nao acabava ai a minha noite. Ela tinha me avisado que vinha. Chegou pra luta, ja sabendo, sem nem ter sido informada, do meu estado. Chegou armada de um presente feito com suas maos de fada e duas panelas de bacalhau. Arrumou a mesa, terminou de fazer o caldo verde que eu tinha deixado pela metade e ordenou que eu me pusesse bonita. Logo atras dela vieram uma meia duzia de tres ou quatro, eu nem sabia. Dividimos historias, mimos trazidos da minha viagem, bacalhau, caldo verde, muito vinho e Ginja pra finalizar. E eu terminei a noite exausta, sentada no chao da cozinha, de novo, tirando o salto e soltando os cabelos. Exausta e vazia, porque tinha despejado tudo naquele chao, antes de comecar a renovar.

Nao sei se acabou, nao sei se estou pronta. Mas a tristeza dos ultimos dias eu chorei inteira. E dei lugar pra alguma alegria.  Agora e’ hora de catar os cacos e colar tudo junto de novo, e ‘ hora de cuidar da vida, porque ha muito a cuidar. Se ela, a tristeza, vier de novo, hoje estarei mais forte, alimentada por todo o afeto que havia naquela bacalhoada, pelo carinho ao telefone, pela alegria ao redor da minha mesa e, sobretudo, pelo abraco amoroso antes de adormecer. Eu nao estou  sozinha.

Nota: Sempre que nao souber o que dar de presente de aniversario a uma pessoa querida, cozinhe quantidades enormes de um prato que seja a sua especialidade, se assegure de que a companhia e’ das melhores, de que o vinho e’ honesto, de que a noite ira madrugada adentro e eu te garanto: nao havera forma de amor maior.

image: google images

A aluninha de mestrado, inteligente pra burro, disse assim:

- Professor, mas o cenário da educação nos Estadunidos vai mudar, porque a atual economia vai fazer com que a quantidade de alunos diminua. Mas, veja bem, daqui a cinco anos (exatamente cinco), quando os alunos voltarem às universidades, será um publico diferente, bem minoria, bem afro-americano, bem latino.

E o vizinho de cadeira dela arrematou lindamente:

- E é justamente por isso que nós (tira meu nome da lista, capiau), estamos discutindo a necessidade da ação afirmativa nos dias de hoje. Brevemente, as minorias não serão mais minorias, e o branco não sera mais maioria.

Eu olhei ao redor e contei: 1 latina, 1 preto (em português a gente pode, né? ou não pode mais?), 1 chinesa e 16 brancos, incluindo o professor, que nada disse numa hora dessas. Eu não sei onde é que os mano ali do canto vivem, mas certamente não é no mesmo país que eu.

Deixa quieto que tá no fim da aula e eu tenho peixe maior pra matar em casa. Deixa o pessoal ir pra casa ouvindo Rush Limbaugh no radio do carro, que deve ser onde eles aprendem essas coisas fantásticas.

Explico: Sim, a população latina nos Estados Unidos está aumentando muito, mas está longe de ser maioria nas escolas particulares que eu e esses fofos frequentam. Cinco anos é muito pouco tempo pra que essa mudança tão radical aconteça. Eu não sei bem o que esse pessoal entende como universidade, certamente não são os centros de produção de diploma em massa onde os latinos e os negros se encontram.

Os professores das universidades americanas são brancos, os alunos são brancos, os profissionais de alto nível, os que trabalham perto do presidente e que realmente tomam as decisões são brancos. E homens.

A presença do jovem negro na cadeia, essa sim, ainda é altíssima. A quantidade de negros que ingressam na universidade pode até ser significativa, mas os números enganam os menos interessados em olhar mais adiante. Os negros também tem um alto índice de desistência. Isso acontece porque os programas sociais são muito bons, criam oportunidades para o adolescente de cor, pobre, ir pra universidade. Mas as escolas de segundo grau do bairro onde ele mora são péssimas, o cara não aguenta dois anos. E quem há de dizer que ele se sente à vontade com aquela gente branca, de classe média-alta, que não sabe da vida dele sequer o começo?

O número de negros em escolas pra negros, segregados, ainda é muito alto. O número de brancos em escolas pra negros, muito baixo. E eu não estou dizendo que as universidades negras (HBCUs) não são boas, elas têm um papel essencial na história desse país. Mas é segregação, ou não é?

Quando você ouve alguém insinuar que a ação afirmativa não é mais necessária, pode apostar, é um branco falando. Eu nunca vi um negro se dar por satisfeito, se achar bem representado, e dizer que a ação pode sair de cena. Nem depois de Obama.

Outro dia, na aula de outra matéria, alguém disse que a informação está aí pra todos, que o papel do professor de segundo grau é dar o conteúdo em classe e informar os alunos sobre as oportunidades. Ela ignorou completamente os professores que colocam os alunos pra baixo. Os que aconselham os alunos de cor a pegar matérias mais fáceis, que não ajudam em nada no acesso à universidade. Há ainda os que aconselham os alunos de cor a pegar matérias profissionalizantes, que aumentam a possibilidade de encontrar um emprego, pro caso de precisar. Isso tudo, aliado ao fato de que o ambiente em casa não deve ser lá muito propício, torna as coisas muito difíceis pra esses adolescentes.

Por essas e outras coisas, nos Estados Unidos que eu conheço, não acredito que  os negros e latinos serão maioria na universidade não, viu? Não em cinco anos. Ainda precisamos muito da ação afirmativa como movimento de mobilidade social.

Hoje é aniversario do meu pai.

Liguei de manhã, ele tinha saído muito cedo, tinha ido pra uma área rural, celular fora de área. Empregada nova, pergunta quem é. E’ a filha dele. Ela respondeu: “aaahhh”.

Não esquece de dar o recado, não sei a que horas poderei ligar de novo. Por favor, não esquece. A empregada antiga me conhecia, pra ela eu tinha nome. Mas, ao falar com alguém estranho, volto aos dez anos de idade, quando eu era “a filha dele” e, tanto pra mim quanto pra ele, a identificação bastava.

Pobre da menina, nem me apresentei. Nem falei oi, nem fui simpática. Tomou conta de mim a arrogância que tinha na infância e na adolescência. Arrogância só compreensível numa filha única. Arrogância só exercida em relação ao pai, nunca em relação à mãe. Esqueci que há muito eu não sou “a filha dele”, que há muito fui ganhando irmãos e perdendo a importância. Todos eles, do jeito deles, mais presentes que eu. Será que ele falou de mim pra nova empregada?

Já não sou mais “a filha dele”. Nem sei se ele se importou de eu só ter ligado outra vez às dez da noite, quando cheguei da aula. Não sei se se importou de eu ter falado com ele por apenas dois minutos, a pausa que meu marido me deu na ligação de trabalho que tinha com a China. Não sei se ele lembra de mim, se pensa em mim quando coloca a cabeça no travesseiro. Se sabe de mim, da minha vida, do que eu faço. Mas não importa, foi aniversário dele e nós nos falamos por dois minutos. Fiz o que de mim era esperado. Liguei. Sou eu, pai, a filha que você vê uma vez ao ano, a primeira, a eterna filha única. Lembra de mim?

Feliz aniversário, pai.

Passei o fim de semana prolongado sentindo saudades. Cada hora era saudade de uma coisa ou pessoa diferente, mas todas elas situadas na Bahia.

Ontem cismei que o céu azul que tomava conta de Rochester parecia com o céu de Outono de Salvador. Era um azul de fim de tarde, um azul de Solar do Unhão, com um toque de Porto da Barra. A temperatura, quente mas agradável, era igualzinha a de lá nessa epoca. Ken não concordou. Claro que não. Não mora no coração dele a dor quietinha que mora no meu, a dor que de vez em quando desperta e vem me fazer triste. Nessas horas, tudo faz lembrar o lugar de onde vim.

Hoje acordei ainda mais triste e liguei pra algumas pessoas que me são caras, não encontrei ninguém em casa. Era feriado tanto aqui quanto lá. Não adiantava falar com a mãe, não era saudade de mãe. Era saudade  dos meus amigos, de mim mesma, de ser como era antes. Saudades de ser uma pessoa que já nem sou mais.

Mais pro fim da tarde abri pela primeira vez o livro de Sophia de Mello Breyner Andersen, a coisa mais linda e significativa que comprei em Portugal. Chama-se “Dia do Mar”. Nada por acaso, bem na página que abri, estava lá, a  minha poesia favorita em toda a obra de Sophia:

“Mar sonoro, mas sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só pra mim.”

Percebi então que tinha saudades era do mar, e chorei. Chorei a minha dor inteirinha e, com os olhos inchados, fui estudar. Como diz  a minha vozinha: o que não tem remédio, remediado está.

Sempre que chego aos Estados Unidos, vindo de outro país, a primeira coisa que noto é como os americanos se vestem mal.
Ainda no aeroporto dá pra perceber a falta de interesse que eles têm nas roupas que vestem. Calça cáqui com camisa pólo pra trabalhar, bermuda cáqui com camiseta branca pra passear. Casais que se vestem do mesmo jeito, com crianças que são a cópia deles por toda parte.
Morando aqui, a gente acaba se acostumando com essa maneira básica de ser e até aderindo um pouco. Mas eu confesso que prefiro estar num lugar onde as pessoas são mais interessantes de olhar. Lisboa pode não ser a meca da moda, mas as pessoas lá se vestem bem, usam cores, parecem mais alegres. Eu fiquei decepcionada quando cheguei ao aeroporto de Philadelphia ontem e me deparei com a cena cáqui.
Paciêcia, pelo menos eu posso vir trabalhar sem me preocupar em ficar me arrumando muito.

Alexia_dad

Minha rimã. Era assim que ela me chamava quando era pequenininha. Eu adorava. Minha garotinha, meu bebê. Há quem diga que a gente se parece. Deve ser verdade, o amor faz as pessoas se parecerem fisicamente.

Minha pequena fez 15 anos esse mês e ganhou uma festa linda. Eu não estava lá. O preço de morar longe às vezes é alto demais. Lembrei do seu aniversário de dez anos, quando ela implorou que eu fosse pra festa: “Só um dia, Carla, só um dia. Depois você pega o ônibus de volta pros Estados Unidos.” Também fiquei pensando em quando ela fez 1 aninho. Naquele eu estava, e ela estava tão feliz, tão linda. O sorriso fácil, do mesmo jeitinho de agora. A gargalhada sonora, que ainda hoje contagia as pessoas ao redor. Ela era um bebê que gargalhava muito. Bastava fazer uma gracinha e ela ria, solta, feliz. Um aninho apenas, e já tinha mudado tanto as nossas vidas.

Minha rimãzinha, minha Aléxia, meu formigão está uma moça, uma mistura gostosa de menina e mulher. Está descobrindo coisas com uma rapidez incrível e eu, às vezes, me pego querendo que o tempo pare, achando que está cedo demais pra tudo. Logo eu, que com sua idade já era tão dona de mim, tão independente.

Ela está sempre perguntando com quantos anos eu namorei, com quantos anos eu dirigi, essas coisas de ter um exemplo a seguir. Não quero que ela vá tão rápido quanto eu fui. Quero pedir que demore um pouquinho mais, que é pra gente poder aproveitá-la assim, nesse momento indeciso entre a infância e a juventude.

Feliz aniversário, meu amor. Que você tenha tudo que eu tive, e mais. Que as suas oportunidades sejam ainda mais ricas que as minhas, que as suas escolhas sejam melhores que as minhas. Que a sua transição pra vida adulta seja leve, feliz, sem os percalços que eu tive. Que a dor demore a te encontrar.

Te amo demais.

Na foto, ela, linda, e o bem que dividimos: nosso pai.

Não é fácil ser brasileiro em lugar nenhum, nem no Brasil. A gente leva fama de picareta, de vulgar, de desonesto e, em alguns casos, de caça-fortuna, por ser casada com estrangeiro.

Viajar às vezes é complicado, a gente tem que engolir uns sapinhos aqui e ali. Mas, na maioria das vezes, são apenas os apaixonados por futebol mesmo, e isso dá pra tirar de letra. Eu até brinco que conheço um ou dois jogadores famosos. “Yeah, a gente cresceu na mesma favela.”

Mas às vezes a coisa é feia e a galera passa dos limites. Estava trocando emails com uma pousada em Estoril, Portugal e, quando disse a eles que não daria o número do meu cartão de crédito por email, essa foi a resposta:

“Boa tarde,

O pre-pagamento da primeira noite é uma segurança para nós porque há muito abuso de reservas feitas do Brasil sómente para o efeito de entrar em Portugal. Agosto é época alta aqui e os quartos reservados tem que ser garantidos.
Aguardo as vossas noticias,
Melhores cumprimentos,”
Susan Gouveia
Pousada Pica-Pau
Estoril, Portugal

Eu sou mal educada, falo palavrão, fico com raiva de matar com uma facilidade incrível. Não tenho a menor condição de lidar com gente desse tipo. Nessa horas, é bom que eu não possa alcançar a jugular a pessoa.

Esse periodo na escola tem sido muito desafiante pra mim. O nome da materia que estou fazendo e’:  Student Affairs: Minority Students.

As discussoes acontecem em volta de temas como escravidao, racismo, segregacao, pobreza, discriminacao inversa, e o mandato de affirmative action.

As aulas tem sido emocionalmente intensas, saimos todos cansados, sem energia pra mais nada. Ja teve gente a beira das lagrimas diante de revelacoes historicas sobre racismo na America do Norte. Eu ja fiquei tremendo na minha cadeira, sem poder falar, com medo de sair um discurso emocionado demais. E’ a materia mais importante que ja’ peguei ate’ agora e, infelizmente, apesar de saberem muito sobre o assunto, os professores sao muito desorganizados, o que acaba nos distraindo. Ja tive professores assim antes, mentes ativas demais, prolixas demais. Eles nao sao engenheiros, ainda bem.

Voltarei a falar dessas aulas, com certeza. Mas, por ora, deixo aqui uma frase que tem voltado sempre a baila nesses ultimos dias, nas leituras que tenho feito. Ela foi dita pelo ex-presidente Lyndon Johnson, que assinou o mandato de affirmative action nos Estados Unidos:

“You do not take a person who, for years, has been hobbled by chains and liberate him, bring him up to the starting line of a race and then say, ‘You are free to compete with all the others,’ and still justly believe that you have been completely fair.”

Minha tosca traducao:

“Voce nao pode libertar uma pessoa que, por anos, esteve presa por correntes, coloca-la na linha de partida de uma corrida e dizer: ‘Voce esta livre pra competir com todos os outros,’ e realmente pensar que esta sendo justo.”

Em meio a toda a comoção que ronda o evento do ano,  a morte de Michael Jackson, eu me encontrava pensativa. Fiquei chocada sim quando a notícia saiu, fiquei triste, ele era muito jovem. Mas, em se tratando de M.J., quando é que se é muito jovem pra qualquer coisa, inclusive pra morrer? A vida do cara passou em velocidade máxima, ele provavelmente viveu mais memoráveis (ou deploráveis) eventos do que muitas gente, digo, celebridade, da mesma idade.

Enquanto os blogueiros, os colegas de trabalho, os amigos todos falavam de como tinham sido fãs na adolescência, de quanto ele tinha embalado histórias de festinhas e dramas típicos da idade, que tal música era o máximo, que tal disco marcou época, eu estava era encafifada comigo mesma, sem saber qual seria a minha música favorita.

Isso até o sábado passado quando, nem lembro como, cheguei a esse video. E a coisa enlouqueceu lá em casa. Dancei e cantei feito doida a tarde toda. Sabe aquelas lembranças boas, aquelas que te colocam o sorriso na boca mesmo sem você tê-lo convidado? Então, assim mesmo. Encontrei-a, a minha música.

Modos que, pra celebrar a sua vida, Michael, e a minha juventude, ambas precocemente findas, dançarei ainda muitas vezes ao som dela. And I promise not to stop until I’ve gotten enough. Apparently that’s what you’ve done. Can’t exactly blame you for that.

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