Há anos não ouvia Maria Bethania, não estava interessada nos últimos cds, até que ela insistiu, ignorou meus protestos e mandou o arquivo com as músicas de Mar de Sophia. Nesse disco, como todo mundo já deve saber, Bethania canta o mar, inspirada pelas palavras de Sophia de Mello Breyner. Foi o meu fim. E o meu começo.

Na primeira faixa, abertura do disco, a minha ferida mais profunda também se abriu quando ouvi: “Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar”, trecho retirado do texto Inscrição, de Sophia de Mello Breyner.

Na segunda faixa tem Iemanjá Rainha do Mar e eu pensei: Como pode o Rio Vermelho viver sem mim no 2 de fevereiro? Eu preciso estar lá! Era um chamado e eu não atendi.

Ainda nessa faixa tem Beira-Mar, e eu vi minha mãe, há vinte e cinco anos atrás, a rodopiar pela casa com sua saia branca esvoaçante, no tempo em que ela era feliz. Chorei de saudades dela, chorei porque ela não é mais tão feliz, chorei porque aqueles anos não mais voltarão. Beira-Mar é minha mãe, sou eu, é Clara Nunes tocando na vitrola, é meu pai chegando da feira, é a nossa mesa farta, Beira-Mar é minha família ainda feliz.

Mar de Sophia ainda tem Grão de Mar, tem Kirimurê, de Jota Veloso, lindamente executada por Naná Vasconcelos. Tem Poema Azul, na qual ela cita Sophia, sempre sobre o mar: “…momentos há em que eu suponho seres um milagre criado só pra mim.” Tem As Praias Desertas, tem Dona do Raio: O vento, sobre Yansã – Santa Bárbara, que também é minha mãe. Tem Floresta do Amazonas, tem Canto de Nanã, o recomeço.

Mas, acima de tudo, Mar de Sophia tem Memórias do Mar, na qual ela canta que “o mundo é um mar, maré de lembranças, lembranças de tantas voltas que o mundo dá.” É nessa música que percebo que Sophia de Mello Breyner sabe muito mais de mim do que eu mesma sabia, e é de onde tirei a frase que coloquei lá no topo da página, ancorando o nome desse blog, amparados pela foto do Farol da Barra, que é o meu guia nessa vida.

Eu nunca tinha colocado nada embaixo do nome do blog porque nunca encontrei nada que me definisse, que me explicasse completamente. Pois está aí, esta sou eu. Mar de Sophia sou eu. Ouça, se quiser.