maio 2007


Eu sou um tanto obsessiva no meu gosto musical. Quando gosto de uma coisa, ouço até cansar. Faz uns dez dias que estou viciada em Madeleine Peyroux e sua voz rouca, que me foi apresentada pelo meu amigo Olivan. O cd “Half the Perfect World” tava no repeat no meu carro há dois dias quando descobri que ela estaria aqui no jazz festival em Junho. A minha alegria foi quase infantil, mal pude aceditar. Agora estou ouvindo os cds “Careless Love” e “Got You on My Mind“, carinhosamente enviados por Juju. Se nunca ouviu, comece clicando aqui pra ouvir a canção Half the Perfect World, que dá nome ao seu último cd. Show de bola… faz tempo que eu não fico tão animada pra ver um show.

A Fer, na onda de outros food bloggers, postou fotos da geladeira dela. Muito apropriado, a gente sempre fica pensando no que é que tem na geladeira de uma pessoa que cozinha tanto e tão bem, né? Mas ela também usou a seguinte frase: “O que será que a minha geladeira revela sobre a minha personalidade?” Daí que eu fiquei pensando no que tem na minha geladeira e não deu outra: Censurada! Tenho medo do que o conteúdo dela diria sobre a minha pessoa. Mas, como eu não tenho vergonha, vou contar assim mesmo.

No meu congelador tem peixe, camarão, lulas, vegetais, peixe de novo, sorvete de açaí e… Countreau, vodka, gin, licor de café e tequila. Na geladeira, champagne, vinho branco pras visitas – que eu não bebo aquilo – além de uns três tipos de cerveja. Aí, só depois, vem leite, sucos, ovos, queijos e mais vegetais, muitos deles.

Conclusão: nós raramente comemos carne vermelha, praticamente vivemos de frutos do mar e vegetais e bebemos, muito. Olha que eu nem citei o booze que não é guardado na geladeira.

Melhor não colocar foto, ou alguém vai querer me arranjar uma reunião do AA.

Pirata

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

                         Sophia de Mello Breyner
  • Com a gasolina pela hora da morte e o feriado chegando, o repórter resolveu entrevistar umas dondocas no posto de gasolina. Uma delas disse que está acostumada com os preços altos, não vai deixar de se divertir por isso e que não há nada que ela possa fazer pra mudar a situação, então pé na estrada… Mas ela tava dirigindo um Land Rover, que faz 14 milhas por galão de gasolina. Enquanto meu Focus faz 28. Ela pensa que não há nada a fazer, enquanto eu penso que a gasolina precisa subir pra 6 dólares o galão antes que gente como ela entenda o problema e resolva mudar de atitude.
  • Empresas administradoras de hotéis nos Estados Unidos se deram conta de que 40% das pessoas que viajam a negócio são mulheres e resolveram oferecer serviço especializado para o público feminino. Até aí tudo certo, umas florzinhas aqui, um chocolatinho ali… Mas uma empresa resolveu separar andares inteiros exclusivamente para mulheres, com launges exclusivos. Homem não entra! O marketing? Segurança. Isso mesmo, segurança!!!! As coisas que eu tenho a dizer sobre isso são impublicáveis num blog respeitável como esse.

São cinco – Joe, Gloria, Kenny, Bob e Billy ‘boy’- os filhos de Anita e Freddie. Joe nasceu num apartamento muito pequeno no Bronx e, logo depois, já esperando Gloria, o casal resolveu comprar uma pequena e charmosa casa num bairro tipicamente italiano, nos arredores de NYC. 52 anos depois, os cinco filhos se despedem da casa que serviu de cenário nos muitos anos da vida dessa família de sete judeus novaiorquinos.

Anita foi-se jovem, de forma lenta e sofrida, deixando filhos muito jovens a cuidar uns dos outros. 34 anos depois, ninguém mais chora a sua morte, mas lembram dela com carinho e saudades.

Freddie acaba de se retirar de cena, aos 89 anos. A casa ainda está cheia de sua presença, a poltrona onde ele estava sempre sentado ainda está lá, com o livro lido pela metade na mesinha ao lado. O NY Times é depositado naquela mesinha todas as manhãs, como se ele ainda lá estivesse. Quase podemos ouvir sua voz a mandar os netos fazerem silêncio, fosse por causa do jogo na tv ou porque ele estava lendo seu livro.

Mas Freddie se foi, é fato. Na falta dele, Kenny e o filho Adam imitam sua voz com perfeição. Todos riem muito, é facil imitar um velho ranzinza e arrancar risadas, ainda mais quando todo mundo naquela sala amava o velho em questão. As crianças sentam na poltrona dele e tentam imitar seus trejeitos, num bom humor que não combina muito com o jeitão sério que Freddie sempre teve.

Muitas fotos são tiradas, todo mundo quer registrar alguma parte da casa que, daqui a pouco, pertencerá a outra família. Cada um vai ver seu quarto, olhar as paredes cheias de memórias pela última vez. Joe e Bob são mais objetivos, vêem aquilo tudo como uma reunião de família apenas, não como um ritual de despedida. Kenny tira a maioria de suas fotos na rua, no quintal. Diz que entrava em casa pra dormir e comer apenas, brincava do lado de fora no inverno e no verão. Ele saiu de casa aos 17 anos, no final da High School, e nunca mais voltou a morar lá. Gloria voltou há dez anos atrás, pra cuidar do pai que envelhecia, e sofreu muito com sua morte. Sofre ainda com a venda da casa e com a necessária mudança.

Billy boy, como ainda é chamado pela maioria dos irmãos, nunca saiu daquela casa de verdade. Ainda tinha quarto e cama, pijama e relógio despertador. Morou lá até os trinta anos, quando finalmente encontrou alguém que acabasse de criá-lo. Mas não se mudou pra longe e, toda quinta feira, voltava pra tomar uma cerveja com os velhos amigos do bairro e dormir na sua velha cama. Todo domingo trazia a mulher e os filhos pra jantar com Freddie.

O fim de semana de despedida acaba e todos vamos embora, dando um último adeus à casa. Só Gloria fica, mas se muda ainda essa semana. Na saída, Billy chora. Kenny, sempre forte, diz que não precisa da casa pra acessar suas memórias. “São só coisas materiais, e Freddy nos ensinou que nada disso tem real valor.”

Tiramos a última foto de Gloria na frente da garagem e partimos. Um longo capítulo que acaba na vida dessa família. Outra família construirá suas memórias naquele mesmo lugar.

(clique nas fotos pra ver mais)

Quando eu era menina deixava a luz do banheiro acesa de noite, só pra ter uma frestinha de luz debaixo da porta.

Adolescente, peguei a mania de dormir no escurão, mas acordava sempre assustada. Virei uma espécie de sonâmbula e acordava já na varanda do apartamento, com o susto de ter pulado da cama. Minha mãe tinha medo que eu caísse.

Tenho medo de mar no fundão, de tomar banho de rio de água escura, de rua deserta de noite. Tenho medo de casa dos outros na hora de dormir. Medo de lavar prato de noite porque tem uma janela bem na minha frente e tá escuro lá fora (muitos filmes de terror americanos dos anos 80 mostravam o monstro ou assassino aparecendo na janela em frente à pia. Eu tenho uma janela daquelas).

Todos os meus medos têm a ver com a escuridão. Eu não faço a menor idéia de como isso começou.