São cinco – Joe, Gloria, Kenny, Bob e Billy ‘boy’- os filhos de Anita e Freddie. Joe nasceu num apartamento muito pequeno no Bronx e, logo depois, já esperando Gloria, o casal resolveu comprar uma pequena e charmosa casa num bairro tipicamente italiano, nos arredores de NYC. 52 anos depois, os cinco filhos se despedem da casa que serviu de cenário nos muitos anos da vida dessa família de sete judeus novaiorquinos.

Anita foi-se jovem, de forma lenta e sofrida, deixando filhos muito jovens a cuidar uns dos outros. 34 anos depois, ninguém mais chora a sua morte, mas lembram dela com carinho e saudades.

Freddie acaba de se retirar de cena, aos 89 anos. A casa ainda está cheia de sua presença, a poltrona onde ele estava sempre sentado ainda está lá, com o livro lido pela metade na mesinha ao lado. O NY Times é depositado naquela mesinha todas as manhãs, como se ele ainda lá estivesse. Quase podemos ouvir sua voz a mandar os netos fazerem silêncio, fosse por causa do jogo na tv ou porque ele estava lendo seu livro.

Mas Freddie se foi, é fato. Na falta dele, Kenny e o filho Adam imitam sua voz com perfeição. Todos riem muito, é facil imitar um velho ranzinza e arrancar risadas, ainda mais quando todo mundo naquela sala amava o velho em questão. As crianças sentam na poltrona dele e tentam imitar seus trejeitos, num bom humor que não combina muito com o jeitão sério que Freddie sempre teve.

Muitas fotos são tiradas, todo mundo quer registrar alguma parte da casa que, daqui a pouco, pertencerá a outra família. Cada um vai ver seu quarto, olhar as paredes cheias de memórias pela última vez. Joe e Bob são mais objetivos, vêem aquilo tudo como uma reunião de família apenas, não como um ritual de despedida. Kenny tira a maioria de suas fotos na rua, no quintal. Diz que entrava em casa pra dormir e comer apenas, brincava do lado de fora no inverno e no verão. Ele saiu de casa aos 17 anos, no final da High School, e nunca mais voltou a morar lá. Gloria voltou há dez anos atrás, pra cuidar do pai que envelhecia, e sofreu muito com sua morte. Sofre ainda com a venda da casa e com a necessária mudança.

Billy boy, como ainda é chamado pela maioria dos irmãos, nunca saiu daquela casa de verdade. Ainda tinha quarto e cama, pijama e relógio despertador. Morou lá até os trinta anos, quando finalmente encontrou alguém que acabasse de criá-lo. Mas não se mudou pra longe e, toda quinta feira, voltava pra tomar uma cerveja com os velhos amigos do bairro e dormir na sua velha cama. Todo domingo trazia a mulher e os filhos pra jantar com Freddie.

O fim de semana de despedida acaba e todos vamos embora, dando um último adeus à casa. Só Gloria fica, mas se muda ainda essa semana. Na saída, Billy chora. Kenny, sempre forte, diz que não precisa da casa pra acessar suas memórias. “São só coisas materiais, e Freddy nos ensinou que nada disso tem real valor.”

Tiramos a última foto de Gloria na frente da garagem e partimos. Um longo capítulo que acaba na vida dessa família. Outra família construirá suas memórias naquele mesmo lugar.

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