julho 2007


Nem a mim, meu bem.
Então você acha que eu, euzinha, vou deixar de amar ou levar abraços ou escrever uma cartinha colorida ou dar um presente e ligar no meio do nada ou amarrar nesta árvore um laço de fita ou esconder poemas em sua casa ou desenhar um mapa na minha barriga ou plantar um girassol na janela porque você já não me ama mais? E o que tenho eu a ver com isso, se você já não me ama mais? O amor que lhe dou não é seu, ele está antes para alegrar o mundo, para ver a sementeira empurrar os grãozinhos de terra e mostrar as petúnias. O amor que lhe dou pertence às petúnias e às begônias, ao desenho das nuvens voando ligeiras, aos sorrisos que espalho aos transeuntes, às folhas dos livros, às conversas delicadas e aos gestos de carinho. O amor que lhe dou nem a mim pertence mais.”
Rita Apoena

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A derrota final chegou para um homem que so sabia ganhar. Morreu ontem Antonio Carlos Magalhaes, o “dono” da Bahia. Sua morte fecha um denso capitulo da nossa historia.

Felizmente para uns, infelizmente para outros, o Carlismo provavelmente nao morreu com ele. O Cabeca Branca deixa herdeiros ideologicos e de sangue que, com certeza, tentarao continuar seu legado. Dificil vai ser encontrar nesse grupo de seguidores alguem com a forca e o carisma de Toinho Malvadeza, um homem que despertou paixoes e odios profundos, o coronel do “rouba mas faz”. Ha que se considerar que carater nao era o seu forte, mas carisma… isso ele tinha demais.

O luto tem gosto de liberdade. Mas nao vamos falar mal de gente morta que e muito feio e desrespeitoso.

Dia comum, sozinha no trabalho, minha chefe, que tava de folga, veio me buscar pra almoçar. O almoço virou um convite pra jantar na casa da família dela, no Seneca Lake. Marido saiu mais cedo do trabalho, passou aqui no escritório e nos acompanhou no que deveriam ser algumas poucas horas de divertimento.

Chegamos ao lago e fomos recepcionados por John e Martha, irmão e cunhada, que já nos esperavam com bebidinhas e petiscos. What a start! Depois de um tour pela casa contruída há 120 anos, toda decorada com móveis antigos, um piano valiosíssimo na sala, um jardim de fazer inveja a Martha Stewart, sentamos a conversar com nossos anfitriões. Gente da melhor qualidade, que deixa as visitas à vontade em cinco minutos. O irmão é colecionador de, pasmem, saca-rolhas. Isso mesmo, o cara tem milhares e milhares de dólares empregados em valiosos saca-rolhas do mundo inteiro. E ele é tão gente boa que faz você se interessar pelo assunto e te dá um aula sobre como colecionar patentes.

Mais irmãos se juntaram a nós e fomos todos pra cozinha fazer uma massa com vegetais frescos, muitas mãos a colaborar. Jantar na varanda, com vista pro lago e pras muitas árvores altíssimas que fazem a gente se sentir numa floresta. Ao notar que eu não estava bebendo mais, John disse: “O que foi? Tá pensando que vai dirigir pra algum lugar hoje à noite?”

Depois da comida deliciosa e várias garrafas de chianti, ainda tentamos ir embora, apenas pra sermos advertidos: “Ninguém sai daqui antes do café da manhã. Diga à sua chefe que vai chegar tarde amanhã e pronto!” Ha! Foi isso mesmo que eu fiz. O jeito era voltar pro vinho, que parecia não acabar mais.

Eles já tinham preparado as camas antes mesmo de chegarmos lá. Camisetas novinhas e confortáveis nos esperavam. Dormimos no melhor quarto da casa, uma grande varanda cercada com tela, ao ar livre, com vista pra uma pequena cachoeira e árvores, muitas árvores. Privacidade total, mas sem paredes. Dormi ao som da água rolando pelas pedras e acordei ao som dos passarinhos ao raiar do dia. O lago ali, lindo, se oferecendo pra um passeio num dos barcos da casa. Pena que tínhamos que trabalhar.

Descendo as escadas, senti o cheirinho de café vindo da cozinha. Tomei o meu sentada na varanda, numa cadeira de balanço, deslumbrada com a beleza do lugar.

A palavra obrigada me pareceu ridiculamente insuficiente pra agrader tal hospitalidade.

Acabo de chegar do jazz festival de Montreal , ouvi muita musica boa, comi muita comida deliciosa, vi muita gente bonita. Alimentos da minha alma: musica, comida, beleza (e vinho).

Ouço Amy Winehouse obssessivamente, como sempre. É degradante, eu sei, mas eu gosto.

Leio Sartre, A Idade da Razao, com prazer. E tenho companhia no meu prazer.

Sinto saudades.