agosto 2007


Ontem de manhã, ao abrir o Drops da Fal, precisei ler o post umas dez vezes pra entender, pra acreditar. Alexandre, seu marido, seu grande amor, faleceu. Assim, de repente, de uma parada cardíaca.

Eu só posso desejar que a Fal tenha força pra passar por esse momento tão difícil. E que o tempo seja seu amigo. My heart is with you, dear.

Reuniões domingueiras intermináveis, aniversários, batizados, formaturas, casamentos, comemoraçães de todo tipo. Quem vê de fora pensa que vivem em harmonia. São joviais, alegres, parecem um grupo de velhas amigas. Mas faz tempo que eu “saquei” qual é a delas. Ainda adolescente, assistia àquele circo com um certo ceticismo. Me parecia que a necessidade de passar tanto tempo juntas, na verdade, era medo de estarem sozinhas, de se encontrarem consigo mesmas. Nem amigas elas eram. Nunca foram.

Eu tive a oportunidade de participar intensamente da vida da minha mãe e suas 4 irmãs porque quando nasci todas eram ainda muito jovens. Minha mãe, a mais velha, tinha só 20 anos. Há ate quem pense que eu sou a irmã mais nova. Aprendi que, isoladamente, essas cinco mulheres são boas pessoas, prestativas, grandes amigas para seus amigos, boas mães para seus filhos. Mas, se a vida lhes chama a funcionar juntas, como uma família, vê-se logo que são como um espelho quebrado, pedaços espalhados pra todo lado. Se alguém tenta juntar os pedaços, percebe que falta a cola. Falta amor. Falta saber amar.

De alguma forma, minha avó, a criatura mais doce que eu já conheci nessa vida, capaz dos mais singelos atos de afeto, falhou onde era mais importante acertar. Ela tentou, eu sei. Mas foi esmagada por acontecimentos absurdos que provavelmente afetaram as mulheres dessa família de forma irreconciliável. Não cabe a mim julgá-las, prefiro ser parte da mudança.

Depois de mim, mais duas meninas e um menino nasceram. Ainda lembro de cada um de meus primos quando eram bebês, eu tinha o maior orgulho de ser a mais velha. Sempre que era preciso eu estava lá, cuidando e protegendo meus pequenos. Na minha última viagem ao Brasil, percebi que nossa caçulinha tinha crescido, ainda que tenhamos resistido um pouco a aceitar. Somos todos adultos agora. Percebi também, não sem um certo alívio, que nos amamos mais do que nossas mães jamais foram capazes de se amar. E não temos medo de mostrar afeto. Minha avó olha pra gente com orgulho, com prazer mesmo, dá pra notar. Todo mundo meio que se alimenta do amor que há entre a gente.

Eu só espero que seja de verdade. Espero que quando a vida nos seja menos dócil, quando ela resolver nos surpreender com as inevitáveis adversidades, que nós estejamos juntos. Quem sabe, antes de partir dessa, minha avó ainda vai ver que conseguiu, demorou muito mas conseguiu formar uma família de verdade.

Eu leio muitos blogs. Leio um número bem maior do que o que aparece aí no blogroll. Daí que eu vejo muita coisa legal e muita coisa esquisita, muitos escritos de gente que tem as faculdades mentais no lugar, muita gente louca com um senso de humor fora do comum, e muita gente estranha se manifestando.

Mas não comento muito, principalmente se for pra discordar, porque eu sei que tem muita gente por aí que não consegue suportar o fato de que alguém discorda de sua importante opinião. Até saber mais sobre quem escreve, eu evito muito contato. Já passei por uma saia justa uma vez e não estou interessada em outra.

Tem um blog que eu leio de vez em quando e normalmente não digo nada. Outro dia, porém, vi um post insinuando que os americanos são todos burros. O comentário era baseado num video duvidoso de um cara fazendo perguntas a americanos que passavam numa rua qualquer, de uma cidade qualquer, sobre história e geografia dos EUA e de outros lugares. As respostas foram TODAS erradas, o cara não achou um ser humano que soubesse qualquer coisa sobre qualquer assunto. Ou escolheu não mostrar essa parte. Eu considero uma irresponsabilidade julgar um povo de um país inteiro como burro por causa de um video desse tipo. Não gosto de generalizações, mas não estou livre delas, como todo mundo. Se alguém me vir generalizando, por favor, chama a minha atenção.

Deixei um comentário educado dizendo que se fôssemos fazer (e já foi feito) a mesma experiência no Brasil o resultado seria o mesmo, que eu acho que gente que tem alguma educação, como nós, não devia fazer esse tipo de julgamento. Inicialmente, meu comentário foi ignorado. Depois, numa resposta pra outra pessoa, que concordava com ela, a autora do blog disse que tem gente que só consegue ver coisas erradas no Brasil, que tudo que vem de fora é bom. Insinuou ainda que ser burro no Brasil está justificado porque somos pobres, ou algo que o valha. Eu não tenho saúde, nem razão, pra entrar numa discussão desse tipo, e saí de fininho. Se as pessoas escolhem conversar apenas com quem concorda consigo, é problema delas. Deletei o endereço dos meus favoritos e fui-me embora. Fazer o quê? A casa é dela e só entra lá quem ela quer. Ainda que eu ache que, desse jeito, é melhor conversar consigo mesmo.

Quem tem telhado de vidro não deve jogar pedra na casa do vizinho.

Domingo, 9 da noite, o telefone toca. Segue o diálogo, entre parênteses meus pensamentos e indignações:

– Oi, Carla. Meu nome é J. Tudo bem?

– ?… tudo bem (não me lembro de ninguém com esse nome)

– A sua amiga D. me deu seu telefone porque eu acabei de me mudar pra Rochester.

– Ah, sim? Que bom… (faz mais de um ano que não vejo a D.)

A D. falou que eu tinha que te conhecer, porque eu também sou de Salvador.

(ah, entao é isso…)

Muita conversa fiada depois….

Carla, você gosta de morar aqui?

– Gosto de muitas coisas aqui, mas ainda sinto falta da cidade grande. Eu gosto de movimento, de ver gente.

– Ah, mas você precisa então viajar mais. NY é um ótimo lugar pra ter contato com a cidade grande, você vai até se cansar de lá.

– ??? (você entendeu? eu também não)

Eu tenho duas filhas pequenas que estão adorando o espaço e a liberdade, antes nós morávamos num apartamento (em outro estado, numa cidade maior). E você, tem filhos?

– Tenho dois enteados, mas são já adolescentes. Filhos, não tenho.

– Ah, você precisa ter filhos. Vai ver como sua vida vai ficar mais cheia.

– (Muita calma nessa hora. O silêncio é a melhor resposta) J., eu espero então que você continue gostando daqui, que se adapte muito bem. Foi ótimo falar com você.

– Ah, anota meu telefone. Vamos marcar um encontro. Eu nao dirijo ainda, daí voce vem aqui em casa pra gente se conhecer e conversar sobre Salvador (ela mora a 40 min. da minha casa). Vem almoçar qualquer dia desses, durante a semana (ela nem perguntou se eu trabalho).

– Hum-hum! Claro. Vou te ligar sim. Boa noite. Um prazer falar com você.

Eu acho isso fantástico. Como é que a garota dá meu telefone sem me perguntar antes? Não acho nada demais as pessoas acharem que podemos ser amigas porque somos da mesma cidade. Eu adorava quando Claudia morava aqui, a gente comia vatapá na semana santa, trazia muamba da Bahia uma pra outra, falava umas coisas que ninguém mais entendia, era uma delícia. Mas ela se tornou minha amiga naturalmente.

Se você acha que duas pessoas que você conhece tem algo em comum, marca uma pizza em casa e convida as duas. Marca num café num fim de tarde. Quem sabe dali não nasce uma grande amizade. Mas dar número de telefone, não. Nesse ponto, eu sou muito americanizada. Além da questão de privacidade, pode ser que voce seja uma péssima observadora e essas pessoas não tenham nada em comum. Se o encontro acontece em território neutro, ele acaba ali, sem promessas de amizade eterna.

Em poucos minutos de conversa a garota quis resolver minha vida duas vezes. Eu podia ter ido dormir sem essa.

Fazia tempo que eu não ia ao cinema sozinha, muito tempo mesmo. Nunca entendi porque as pessoas precisam ir ao cinema acompanhadas. Eu adoro estar comigo mesma e com a história que se passa na tela, curto o filme do mesmo jeito. Ontem à noite fui ver Paris, je t’aime sozinha.

O filme é um patchwork de curta-metragens, histórias de amor, que se passam em Paris. Cada curta é dirigido por uma pessoa diferente. O Brasil está representado por Walter Salles e Daniela Thomas. Eu gostei muito da história deles, com elementos bem familiares a nós, brasileiros. Mas, cheia de ciúmes, declaro que, ao invés de Catalina Sandino Moreno, eles poderiam ter usado uma atriz brasileira. Uma das histórias mais bonitas foi com Nathalie Portman, eu adoro essa garota. Adorei Closer por causa dela. Maggie Gyllenhaal deu um show de bola falando francês muito desembaraçadamente. Juliette Binoche estava ótima, como sempre, numa história muito, muito triste. Enquanto alguns diretores escolheram filmar o amor entre pais e filhos, outros escolheram filmar pessoas se encontrando, se apaixonando, e outros ainda escolheram falar do o fim do amor. Nessa ultima categoria, a minha história favorita foi “Quartier Latin”, com Gena Rowlands. Absolutamente fantástica no papel de uma mulher recém separada do marido, ela parece estar à beira das lagrimas durante todo o tempo em que conversa com ele e desfia suas mágoas. Algumas outras partes eu não gostei, mas não estou com vontade de falar delas.

A personagem principal do filme estava linda, como sempre. Ora sombria, ora doce e romântica, Paris saiu muito bem na fita. O ‘backdrop’ perfeito para histórias de amores e de dores.

No fim do filme, acabei encontrando uma amiga. Fomos ao café do cinema pra tomar um vinho e jogar conversa fora, ouvindo um bom jazz ao vivo. Voltei pra casa romântica, embalada por Madeleine Peyroux cantando um amor acabado em Careless Love, e feliz de não ter que chorar e sofrer por amor. Nem a minha alma naturalmente nostálgica consegue sentir saudades de sofrer por amor.

(Aviso: Post contém spoillers, mas nada que estrague o filme)

Não é todo dia que um thriller enlatado americano me interessa, mas The Bourne Ultimatum eu tinha que ver porque adorei os dois primeiros filmes: The Bourne Identity e The Bourne Supremacy.

O que me atrai nessa série de filmes, que promete não acabar aqui, é o personagem principal, acima de tudo. Jason Bourne é um personagem contemporâneo, um homem atormentado, à procura de sua própria identidade. Ao contrario de Jack Bauer, em 24, Jason não é um super-herói da era high-tech tentando salvar o mundo, ou os Estados Unidos, ele é uma vítima do sistema e tudo o que faz é em causa própria. Se salvou vidas até agora, foi pra aliviar a sua própria consciencia, esforço inútil pra se redimir das muitas vidas que andou tirando em nome da CIA. A cara de garoto que Matt Damon ainda tem nos ajudou, nos primeiros filmes, a acreditar que Jason tinha alguma inocência. Agora que sabemos mais sobre seu passado, talvez sejamos guiados a mudar de opinião. Há muito ainda a ser revelado sobre ele.

O filme, no entanto, é uma lavagem cerebral pros americanos e pros amantes da cultura big brother, de uma forma geral. A CIA, um dos órgaos mais incompetentes do governo americano, é retratada como a toda-poderosa, capaz das maiores estripulias pra controlar informação no mundo inteiro. Imagine que, de NY, eles manipulam o serviço de segurança da estação Waterloo, em Londres, sem interferência de autoridades inglesas, como se a CIA fosse que a que tudo vê, a que tudo pode. Ora, o primeiro pensamento que me ocorre é: fossem eles tão competentes assim, não tinha mais nem um pedacinho do Bin Laden pra contar a história. Mas relevemos, é filme e nao é feito pra acreditar, é só assim que eu consigo assistir esse tipo de ação. Marido discordou, e saiu de lá com um gosto amargo na boca. Pra ele, a indústria cinematográfica tem grande responsabilidade na forma como o povo americano se sente falsamente protegido pelos orgãos governamentais. Como se absolutamente nada pudesse acontecer de ruim porque tem um monte de agentes poderosíssimos e cheios de autoridade pra tomar decisões, cuja única missão é, a qualquer preço, salvar o país das garras dos poderes malignos. E o bem sempre ganha, ne? Pelo menos, em Hollywood.

Um momento bem interessante é quando alguém diz a Bourne que foi usada nele uma técnica experimental de modificação de comportamento, pra dissociá-lo do rapaz normal que era antes e transformá-lo num super-agente matador. Ora, em realidade, a técnica de modificação de comportamento a que eles se referem tem se mostrado ineficaz na tentativa de fazer as pessoas deixarem de fumar… Riam comigo.

Mas olha, eu não sou americana (preciso repensar essa frase), nunca comprei a imagem fodona da CIA, e nunca me senti protegida por ela, então pude assistir ao filme sem os mesmos sentimentos que meu marido, apesar de saber que ele tem razão sim. Pra mim, ganhou o prazer de ver Bourne desesperando pelas ruas de um país qualquer (as locações são as mais variadas), ora caçado ora caçador e, às vezes, pra meu deleite, os dois ao mesmo tempo, sempre driblando quem quer que fosse. Valeu à pena ver Bourne mostrar que, apesar de nem sempre ganhar a batalha, é mais esperto e mais inteligente que seus “criadores”.

Vá ver, se quiser apenas se divertir.

 

Em dias assim, livre e feliz…

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