(Aviso: Post contém spoillers, mas nada que estrague o filme)

Não é todo dia que um thriller enlatado americano me interessa, mas The Bourne Ultimatum eu tinha que ver porque adorei os dois primeiros filmes: The Bourne Identity e The Bourne Supremacy.

O que me atrai nessa série de filmes, que promete não acabar aqui, é o personagem principal, acima de tudo. Jason Bourne é um personagem contemporâneo, um homem atormentado, à procura de sua própria identidade. Ao contrario de Jack Bauer, em 24, Jason não é um super-herói da era high-tech tentando salvar o mundo, ou os Estados Unidos, ele é uma vítima do sistema e tudo o que faz é em causa própria. Se salvou vidas até agora, foi pra aliviar a sua própria consciencia, esforço inútil pra se redimir das muitas vidas que andou tirando em nome da CIA. A cara de garoto que Matt Damon ainda tem nos ajudou, nos primeiros filmes, a acreditar que Jason tinha alguma inocência. Agora que sabemos mais sobre seu passado, talvez sejamos guiados a mudar de opinião. Há muito ainda a ser revelado sobre ele.

O filme, no entanto, é uma lavagem cerebral pros americanos e pros amantes da cultura big brother, de uma forma geral. A CIA, um dos órgaos mais incompetentes do governo americano, é retratada como a toda-poderosa, capaz das maiores estripulias pra controlar informação no mundo inteiro. Imagine que, de NY, eles manipulam o serviço de segurança da estação Waterloo, em Londres, sem interferência de autoridades inglesas, como se a CIA fosse que a que tudo vê, a que tudo pode. Ora, o primeiro pensamento que me ocorre é: fossem eles tão competentes assim, não tinha mais nem um pedacinho do Bin Laden pra contar a história. Mas relevemos, é filme e nao é feito pra acreditar, é só assim que eu consigo assistir esse tipo de ação. Marido discordou, e saiu de lá com um gosto amargo na boca. Pra ele, a indústria cinematográfica tem grande responsabilidade na forma como o povo americano se sente falsamente protegido pelos orgãos governamentais. Como se absolutamente nada pudesse acontecer de ruim porque tem um monte de agentes poderosíssimos e cheios de autoridade pra tomar decisões, cuja única missão é, a qualquer preço, salvar o país das garras dos poderes malignos. E o bem sempre ganha, ne? Pelo menos, em Hollywood.

Um momento bem interessante é quando alguém diz a Bourne que foi usada nele uma técnica experimental de modificação de comportamento, pra dissociá-lo do rapaz normal que era antes e transformá-lo num super-agente matador. Ora, em realidade, a técnica de modificação de comportamento a que eles se referem tem se mostrado ineficaz na tentativa de fazer as pessoas deixarem de fumar… Riam comigo.

Mas olha, eu não sou americana (preciso repensar essa frase), nunca comprei a imagem fodona da CIA, e nunca me senti protegida por ela, então pude assistir ao filme sem os mesmos sentimentos que meu marido, apesar de saber que ele tem razão sim. Pra mim, ganhou o prazer de ver Bourne desesperando pelas ruas de um país qualquer (as locações são as mais variadas), ora caçado ora caçador e, às vezes, pra meu deleite, os dois ao mesmo tempo, sempre driblando quem quer que fosse. Valeu à pena ver Bourne mostrar que, apesar de nem sempre ganhar a batalha, é mais esperto e mais inteligente que seus “criadores”.

Vá ver, se quiser apenas se divertir.