Domingo, 9 da noite, o telefone toca. Segue o diálogo, entre parênteses meus pensamentos e indignações:

– Oi, Carla. Meu nome é J. Tudo bem?

– ?… tudo bem (não me lembro de ninguém com esse nome)

– A sua amiga D. me deu seu telefone porque eu acabei de me mudar pra Rochester.

– Ah, sim? Que bom… (faz mais de um ano que não vejo a D.)

A D. falou que eu tinha que te conhecer, porque eu também sou de Salvador.

(ah, entao é isso…)

Muita conversa fiada depois….

Carla, você gosta de morar aqui?

– Gosto de muitas coisas aqui, mas ainda sinto falta da cidade grande. Eu gosto de movimento, de ver gente.

– Ah, mas você precisa então viajar mais. NY é um ótimo lugar pra ter contato com a cidade grande, você vai até se cansar de lá.

– ??? (você entendeu? eu também não)

Eu tenho duas filhas pequenas que estão adorando o espaço e a liberdade, antes nós morávamos num apartamento (em outro estado, numa cidade maior). E você, tem filhos?

– Tenho dois enteados, mas são já adolescentes. Filhos, não tenho.

– Ah, você precisa ter filhos. Vai ver como sua vida vai ficar mais cheia.

– (Muita calma nessa hora. O silêncio é a melhor resposta) J., eu espero então que você continue gostando daqui, que se adapte muito bem. Foi ótimo falar com você.

– Ah, anota meu telefone. Vamos marcar um encontro. Eu nao dirijo ainda, daí voce vem aqui em casa pra gente se conhecer e conversar sobre Salvador (ela mora a 40 min. da minha casa). Vem almoçar qualquer dia desses, durante a semana (ela nem perguntou se eu trabalho).

– Hum-hum! Claro. Vou te ligar sim. Boa noite. Um prazer falar com você.

Eu acho isso fantástico. Como é que a garota dá meu telefone sem me perguntar antes? Não acho nada demais as pessoas acharem que podemos ser amigas porque somos da mesma cidade. Eu adorava quando Claudia morava aqui, a gente comia vatapá na semana santa, trazia muamba da Bahia uma pra outra, falava umas coisas que ninguém mais entendia, era uma delícia. Mas ela se tornou minha amiga naturalmente.

Se você acha que duas pessoas que você conhece tem algo em comum, marca uma pizza em casa e convida as duas. Marca num café num fim de tarde. Quem sabe dali não nasce uma grande amizade. Mas dar número de telefone, não. Nesse ponto, eu sou muito americanizada. Além da questão de privacidade, pode ser que voce seja uma péssima observadora e essas pessoas não tenham nada em comum. Se o encontro acontece em território neutro, ele acaba ali, sem promessas de amizade eterna.

Em poucos minutos de conversa a garota quis resolver minha vida duas vezes. Eu podia ter ido dormir sem essa.