setembro 2007


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Uma das minhas mais caras recordações de Salvador são dos fins de tarde de sábado no Solar do Unhão, o pôr do sol, as jam sessions, a boa música, os amigos queridos. O jazz de Ivan Huol (diretor musical e criador do projeto), André Magalhaes, Ivan Bastos, Paulo Mutti e quem mais aparecesse por lá a fim de fazer um som, sempre funcionando como fio condutor de deliciosos encontros ao ar livre. A Jam nunca era o destino final, era apenas o começo das noites de sábado, e uma noite de sábado que começava lá sempre terminava bem.

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O projeto começou pequeno, mas a idéia era fantástica e logo começou a atrair muita gente. Um grande numero de pessoas do mundo musical ia lá dar uma canja: os famosos, os nobodies e os que vieram a ficar famosos. Havia quem fosse lá so pra ouvir, sentados nas primeiras cadeiras, outros iam pra bater papo com os amigos, tendo a música como pano de fundo. O grande lance era chegar cedo, ver o sol se por e dar uma olhada nas exposições do MAM antes que a música começasse. Era o melhor programa da cidade.

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Nem me lembro quando fui lá pela primeira vez, sozinha. Devagar, fui encontrando pessoas conhecidas, fazendo novos amigos e, no final, fazia parte de um grupo animado, de gente muito esperta, que sabia muito de muita coisa, transformando as nossas noites de sábado num encontro cultural riquíssimo. Música, cinema, literatura, tudo era discutido e experimentado naquele pequeno círculo.

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Em 2001 a Jam acabou, no mesmo ano em que eu me mudei pra cá. Nas minhas visitas a Salvador era sempre muito estranho voltar ao Solar, um dos meus lugares favoritos na cidade, e não ouvir a mesma música, ver as mesmas pessoas. Essa lacuna, no entanto, foi preenchida no mês passado, quando as sessões de boa música voltaram, com um novo nome, JAM no MAM, e eu mal posso esperar pra ver o espetáculo de novo. Olivan, meu querido amigo daquela época, foi lá ver e disse que foi emocionante. São dele as fotos que ilustram esse post. Saudade agora tem remédio. E eu já tenho programa pro sábado, 20 de Janeiro de 2008 ao encerrar do dia.

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2007 foi um ano rico em leituras e, como eu duvido que mude de idéia daqui pra Dezembro, resolvi escrever sobre o melhor livro que li esse ano. Depois de ter tido um mais que feliz encontro com Sartre e Simone de Beauvoir na biografia de Hazel Rowley, tive o prazer de ler Sartre pela primeira vez, e adorei. Com Simone, pelo contrário, empaquei no meio de “Os Mandarins” e ele ate hoje me espera na mesinha de cabeceira, contrariando as leis de Feng Shui.

Pensei que pararia por aí e que “A Idade da Razão“, de Sartre, seria a marca de excêlencia. Até que eu aceitei o convite de um amigo pra participar de uma comunidade orkutiana sobre literatura contemporânea, da qual nao sei xongas (copyright de Ricardo Freire), porque simplesmente não me dedico a conhecê-la, e fui surpreendida com comentários sobre o livro aí ao lado. Fiquei curiosa e corri pra livraria.

Disgrace, de J.M. Coetzee me atingiu como um raio, bem na cabeça. Onde eu estive esse tempo todo que nunca tinha lido uma linha sequer desse homem? Coetzee é sul africano e Disgrace trata da vida de David Lurie, um professor universitário em decadência, na África do Sul pós-aparthaid (tem palavra em português pra isso?). O livro é cínico, não é confortável de ler, pra ninguém, de nenhuma raça. É perturbador e não pretende dourar a pílula sob nenhum ponto de vista. David Lurie, na sua queda livre como ser humano, sofre degradação física e psicológica, e chega a ser reduzido a uma vida quase animal. Na verdade, o livro compara a existência humana e a animal o tempo todo, o que certamente incomoda a muitos, incomodou a mim.

Os personagens de Cortzee são reais, eles existem, e saem do papel pra vir bater um papo com o leitor, um papo um tanto perturbador. O comportamento de David Lurie e de sua filha Lucy muitas vezes me provocou ímpetos de agarrá-los pelo colarinho, e forçá-los a agir de forma diferente. Outras vezes me provocou questionamentos do tipo: “por que razão, meu deus, alguém agiria assim?”

Mas olha, eu não sei fazer crítica literária, só sei contar a história, entao vou parar por aqui pra não dar nenhum spoiler.

Penso que boa literatura, que nos deixa assim, de boca aberta, PRECISA ser dividida com as pessoas que a gente ama, então presenteei um amigo e fiz uma outra comprar o livro. Somos todos cúmplices agora. Espero que os dois, como eu, se apaixonem por Coetzee. Preciso dissecar a obra dele, como se futuca um sótão cheio de velhas surpresas, coisas já conhecidas de muita gente, mas que eu não tinha a menor idéia da existência.

“Querida Carla:

Eu esperava entrar em contato com você mais cedo mas, por alguma infeliz razão, eu digitei seu email errado da primeira vez. Desde que eu a conheci sua imagem tem sido parte integrante da minha existência diária. Esta é a realidade, independente da sua atual situação. O curto e afável tempo que eu passei na sua companhia foi o melhor do meu verão inteiro. Espero ter a oportunidade de vê-la outra vez. Seria um grande prazer.”

O homem que me enviou o email acima é, provavelmente, o mais galante sobre o qual eu já depositei meus olhos. Nós nos conhecemos no meu restaurante favorito, uns dois meses atrás. Almoçamos no bar, eu e Jill (minha chefe), como sempre preferimos. Mr. Russell passou todo o tempo do nosso almoço numa séria conversa com o seu estudante de PhD, numa mesa perto de nós. Seus olhos pregados em nós duas, eu podia sentir, ainda que estivesse de costas.

Quando acabamos de almoçar, ele veio, se apresentou, beijou nossas mãos, e pediu à bartender que nos servisse mais uma garrafa do vinho que estávamos tomando. Lá se foi nossa volta ao trabalho, mas confesso: começou ali uma das tardes mais divertidas de todo o meu verão também. Mr. Russell se mostrou um homem culto, inteligente, muito bem informado e, acima de tudo, amante do Brasil e de sua cultura, muito além dos óbvios clichés.

Quando estavámos saindo ele disse que arriscaria qualquer coisa, qualquer coisa mesmo por um minuto a sós comigo, mas que sabia que era muito pouco provável que eu aceitasse. Disse ainda que uma mulher como eu só poderia ter um marido muito apaixonado, e que ele certamente seria vítima de um crime passional se me tocasse. “Mas, lembre-se, eu disse que arriscaria qualquer coisa.”

Eu fiquei estupefacta, boquiaberta, sem ação e sem palavras. Se fosse um outro qualquer teria respondido à altura, mas ele? Mr. Russell é um homem educado, galante, charmoso, bonito e tem, pasmem, 75 anos de idade. Eu saí dali sem dizer mais uma palavra, e Jill sem conseguir conter o riso.

Agora me diz, não era o que me faltava?

Depois de devorar muitas gramas de chocolate e de passar a manhã na cama, sozinha, enroscada no meu cobertor, eu tenho ímpetos de ir às compras. Nada de errado com isso, comprar um agradinho é uma otima forma de devolver a sanidade mental a uma mulher com os hormônios desequilibrados.
O problema é que o objeto do desejo é esse aí da foto, um lindo Jimmy Choo que eu tive a audácia de por nos pés há duas semanas atrás, quando estava em Toronto. Daí pra cá não consegui tirá-lo da cabeça. Por módicos $650 dólares+taxes eu posso trazer o lindinho pra casa e me sentir uma princesa ao calçá-lo, ainda que esteja usando jeans e camiseta.
Oh, céus! Favor enviar de volta a minha sanidade mental. Pior é que nesses dias em que marido está do outro lado do país, eu não tenho ninguém pra me manter sob controle.
Toda garota, pobre ou rica, deveria ter um Jimmy Choo.

Isso aqui não é e nem pretende ser um food blog. Eu não tenho a disciplina que ela tem, nem o talento pra tirar fotos lindas de pratos deliciosos.

Mas hoje eu tive que registrar meu primeiro Phở que deu certo, uma sopinha vietnamita que eu adoro. Não que seja difícil fazer uma sopinha de caldo de galinha com macarrãozinho, né? Minha mãe me perguntaria se eu não tenho vergonha de me gabar de coisa tão prosaica. Mas não e tão simples assim, os sabores da cozinha vietnamita são muito delicados, é preciso encontrar o ponto certo.

Depois de duas outras tentativas, eis a minha versão de phở: alho, gengibre, cebolinha verde, peito de frango, caldo de frango, rice noodles, baby bok choy e lemongrass. Adicionei umas gotinhas de limão e de molho sriracha antes de comer e pronto. Uma delícia, comemos que ficamos tristes.