“Querida Carla:

Eu esperava entrar em contato com você mais cedo mas, por alguma infeliz razão, eu digitei seu email errado da primeira vez. Desde que eu a conheci sua imagem tem sido parte integrante da minha existência diária. Esta é a realidade, independente da sua atual situação. O curto e afável tempo que eu passei na sua companhia foi o melhor do meu verão inteiro. Espero ter a oportunidade de vê-la outra vez. Seria um grande prazer.”

O homem que me enviou o email acima é, provavelmente, o mais galante sobre o qual eu já depositei meus olhos. Nós nos conhecemos no meu restaurante favorito, uns dois meses atrás. Almoçamos no bar, eu e Jill (minha chefe), como sempre preferimos. Mr. Russell passou todo o tempo do nosso almoço numa séria conversa com o seu estudante de PhD, numa mesa perto de nós. Seus olhos pregados em nós duas, eu podia sentir, ainda que estivesse de costas.

Quando acabamos de almoçar, ele veio, se apresentou, beijou nossas mãos, e pediu à bartender que nos servisse mais uma garrafa do vinho que estávamos tomando. Lá se foi nossa volta ao trabalho, mas confesso: começou ali uma das tardes mais divertidas de todo o meu verão também. Mr. Russell se mostrou um homem culto, inteligente, muito bem informado e, acima de tudo, amante do Brasil e de sua cultura, muito além dos óbvios clichés.

Quando estavámos saindo ele disse que arriscaria qualquer coisa, qualquer coisa mesmo por um minuto a sós comigo, mas que sabia que era muito pouco provável que eu aceitasse. Disse ainda que uma mulher como eu só poderia ter um marido muito apaixonado, e que ele certamente seria vítima de um crime passional se me tocasse. “Mas, lembre-se, eu disse que arriscaria qualquer coisa.”

Eu fiquei estupefacta, boquiaberta, sem ação e sem palavras. Se fosse um outro qualquer teria respondido à altura, mas ele? Mr. Russell é um homem educado, galante, charmoso, bonito e tem, pasmem, 75 anos de idade. Eu saí dali sem dizer mais uma palavra, e Jill sem conseguir conter o riso.

Agora me diz, não era o que me faltava?