2007 foi um ano rico em leituras e, como eu duvido que mude de idéia daqui pra Dezembro, resolvi escrever sobre o melhor livro que li esse ano. Depois de ter tido um mais que feliz encontro com Sartre e Simone de Beauvoir na biografia de Hazel Rowley, tive o prazer de ler Sartre pela primeira vez, e adorei. Com Simone, pelo contrário, empaquei no meio de “Os Mandarins” e ele ate hoje me espera na mesinha de cabeceira, contrariando as leis de Feng Shui.

Pensei que pararia por aí e que “A Idade da Razão“, de Sartre, seria a marca de excêlencia. Até que eu aceitei o convite de um amigo pra participar de uma comunidade orkutiana sobre literatura contemporânea, da qual nao sei xongas (copyright de Ricardo Freire), porque simplesmente não me dedico a conhecê-la, e fui surpreendida com comentários sobre o livro aí ao lado. Fiquei curiosa e corri pra livraria.

Disgrace, de J.M. Coetzee me atingiu como um raio, bem na cabeça. Onde eu estive esse tempo todo que nunca tinha lido uma linha sequer desse homem? Coetzee é sul africano e Disgrace trata da vida de David Lurie, um professor universitário em decadência, na África do Sul pós-aparthaid (tem palavra em português pra isso?). O livro é cínico, não é confortável de ler, pra ninguém, de nenhuma raça. É perturbador e não pretende dourar a pílula sob nenhum ponto de vista. David Lurie, na sua queda livre como ser humano, sofre degradação física e psicológica, e chega a ser reduzido a uma vida quase animal. Na verdade, o livro compara a existência humana e a animal o tempo todo, o que certamente incomoda a muitos, incomodou a mim.

Os personagens de Cortzee são reais, eles existem, e saem do papel pra vir bater um papo com o leitor, um papo um tanto perturbador. O comportamento de David Lurie e de sua filha Lucy muitas vezes me provocou ímpetos de agarrá-los pelo colarinho, e forçá-los a agir de forma diferente. Outras vezes me provocou questionamentos do tipo: “por que razão, meu deus, alguém agiria assim?”

Mas olha, eu não sei fazer crítica literária, só sei contar a história, entao vou parar por aqui pra não dar nenhum spoiler.

Penso que boa literatura, que nos deixa assim, de boca aberta, PRECISA ser dividida com as pessoas que a gente ama, então presenteei um amigo e fiz uma outra comprar o livro. Somos todos cúmplices agora. Espero que os dois, como eu, se apaixonem por Coetzee. Preciso dissecar a obra dele, como se futuca um sótão cheio de velhas surpresas, coisas já conhecidas de muita gente, mas que eu não tinha a menor idéia da existência.