Quase todo dia a gente vê notícias de estudantes levando armas pra escola, alunos de universidade atirando nos colegas, em professores. O episódio de Virginia Tech foi um dos mais traumáticos, pessoas conhecidas nossas trabalhavam no prédio onde tudo começou, os alunos daqui tinham amigos lá, um drama horrível.

Apesar de trabalhar numa universidade, eu nunca pensei que pudesse me sentir ameaçada por algo assim, a gente sempre acha que só acontece com o vizinho. Bem, esse meu modo de ver as coisas mudou na última sexta-feira à tarde, quando um aluno desconhecido, visivelmente perturbado, entrou no meu escritório dizendo que precisava conversar comigo. A conversa que ele tentou ter comigo foi surreal, ele se recusou a me dizer seu nome ou o nome do professor de quem se queixava tanto, estava agitado e em total desequilíbrio emocional. As expressões no rosto dele iam de indignação a ironia, de choro a desprezo em questão segundos. Quando eu disse a ele que precisava de mais informação pra tentar encaminhá-lo a alguém que pudesse ajudar, ele gritou que eu o estava desrespeitando, e a expressão no seu rosto era de raiva. Deixei que falasse. O telefone tocava insistentemente, eu sabia quem era, precisava muito atender, com muito cuidado pedi licença. Ele agiu como se tivesse sido gravemente ofendido por mim, abriu a mochila e… Desistiu do que ia pegar, agarrou suas coisas e saiu do meu escritório correndo, como se fugisse de algo. Eu fechei a porta e fiquei ali, sozinha, com medo.

Eu me sentia péssima, um misto de culpa e raiva. Culpa por ter falhado, por não ter realmente tentado ajudar aquele jovem desesperado por atenção. Raiva porque sabia que ele tinha me provocado a culpa, e que não cabia a mim ajudá-lo, ele precisava de um médico. Depois veio de novo o medo de que ele tivesse uma arma naquela mochila e saísse atirando. Era quase fim do dia, fui embora. Em casa, passei a noite inteira pensando no cara e nas coisas que ele disse.

Hoje cedo comecei a contar a história a um dos professores do departamento e ele me interrompeu dizendo que sabia o que tinha acontecido. O garoto foi daqui direto pra sala do tal professor, que era o alvo de suas críticas. Chegando lá, fechou a porta com violência e começou a gritar coisas desconexas, a chorar muito e a dizer que ele não tinha tentado ajudá-lo e que eu não tinha competência. Gritou o que quis e foi embora, batendo a porta de novo. Ao chegar ao seu escritório hoje, o professor encontrou uma sacola pendurada na porta, com uma nota de desculpas pra ele e pra mim, e um presente pra cada um de nós.

Estamos escrevendo uma carta que será enviada, junto com os presentes, ao departamento apropriado pra cuidar disso. Nós dois concordamos que não há como ser tolerante num caso assim, não depois de tantos outros casos de estudantes perturbados terem virado tragédias. Espero que a alta administração da universidade tome uma atitude responsável, e que eu esteja errada, muito errada, em relação a esse aluno.

Update: Gente, obrigada pelos comentarios de apoio. Eu estou bem, nada de ruim aconteceu e a a diretoria da universidade esta tomando providencias pra que o aluno tenha tratamento adequado. Ele ja teve uma conversa longa com o professor e manifestou a vontade de conversar comigo, mas eu sinceramente estou evitando. Tomara que ele fique bem, a gente tambem tem medo de que ele faca algo contra si mesmo.