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Agradeço por ter chegado em casa sã e salva do que deve ter sido a pior de todas as viagens de carro da minha vida.

Saí de NY às 8 da manhã e só cheguei em casa às 7 da noite, numa viagem que normalmente dura 5 horas. O tempo resolveu reservar todas as suas surpresas pra um só dia. Enquanto muitos se refastelavam em casa, com as sobras do peru de quinta, e viam seus jogos de futebol, outros milhões se degladeavam nas estradas, vítimas de todo tipo de manifestação natural: chuva, vento, neve, pedrinhas de gelo, neve misturada com chuva. Uma variedade de fazer gosto.

Quando eu ainda conseguia contar, a média era de cinco carros fora da estrada a cada 20 milhas. Tive dificuldade de catalogar os tipos de acidentes: escorrego pra fora da pista, batida no carro da frente, vítima de batida pelo carro de trás, água na rebimboca da parafuseta, pneu furado, motor super aquecido, sem gasolina e até carro virado de cabeça pra baixo com motorista intacto – ainda bem. Tinha acidente de tudo que era tipo, o negócio era a gente nao se enfiar em um, e não deixar que ninguem nos enfiasse.

As paradas de estrada estavam mais lotadas que buteco da avenida sete no sábado de carnaval. Paramos numa McDonalds…hahaha! quem me conhece vai pensar que eu estou mentindo, mas era necessidade, não era escolha. Então, paramos na coisa lá pra comer…argh! e fazer xixi. A fila tava uma coisa de louco, mas o espírito era colaborativo. As pessoas trocavam dicas de trânsito, rotas alternativas (todas bichadas), receita de peru pro próximo ano, segredos de família e as porras. Tudo isso tentando aliviar o estresse que é saber que ainda faltam centenas de milhas pra chegar em casa, e que pode demorar muitas horas. Isso pro caso de se chegar são e salvo.

Mas, em toda cena feel good envolvendo seres humanos, tem sempre um espírito de porco, né não? A fila do banheiro estava quilométrica, as garotas vencendo por 25 a zero, ia levar uns 40 minutos. Por que diabos mulher demora tanto no banheiro? Pensei rápido e pedi a maridão ir lá dar uma checada se tinha algum cabra com o weewee de fora no urinol porque eu ia fazer xixi no mictório dos homens. Nisso, vem uma senhora fofa, com seu marido a tira-colo pra fazer exatamente o mesmo que eu. Ken saiu do banheiro e disse: “tá livre, todo mundo dentro de seus cubículos, ninguém no urinol”. Entramos as duas já aliviadas.

Volta pra fila. Um segundinho antes de entrarmos um cabra atrás de mim deu um xiliquinho porque ia ter mulher no mictório dele, ao que eu respondi um oxe bem alongado, assoviado no final, quem é baiano vai entender. Tem oxe pra toda ocasião.

Fizemos nosso xixi sem ver o peru de ninguém, lavamos as mãos ao lado dos rapazes educadíssimos que estavam lá dentro e saímos. Não é o que o cara de fora tava fazendo uma cena na fila? Tipo escândalo, dizendo que aquilo era um absurdo, que ele se recusava a entrar ali com duas mulheres, etc. etc. Agora veja só, olhe essa foto aí de cima. Uma pena que ela não te dá a dimensão real do problema porque não te mostra o gelo no chão, o gelo que pode derrapar nosso carro num segundo, o gelinho que pode nos levar pro buraco do meio entre as pistas, sabe-se lá o que mais ele pode causar. Ela não mostra os motoristas agarrados aos seus volantes, tentando achar neles a certeza de chegar em casa bem, e o medo que dava quando mais um carro derrapava bem na nossa frente. E o cara fazendo cena porque tinha xereca no banheiro dele? Pela madrugada. Me falta até o que dizer nessa hora.