abril 2009


A pessoa sabe que está sozinha no mundo quando levanta da cama e faz a própria gemada. Porque, convenhamos, gemada é coisa de mãe, todo mundo que tem mãe sabe disso. No máximo, a avó tem o direito de fazer quando a mãe esta ausente, temporaria ou permanentemente. Tia não faz gemada, marido deus me livre, vizinho ave maria. Sem condições.

Veja bem, você leitor já sabe que eu não acredito em nada. Eu não acredito nem na primavera, e ela vem todo ano e me pega no susto. Como é que eu ia acreditar em gemada? O que é que tem naquele copo fumegante de gema de ovo (argh!), mel e leiteh quenteh (claro, porque todo mundo devia falar leite quente como os paranaenses falam, acho lindo) que vai tirar você do perrengue em que está? Nada, meu filho, é tudo folclore.

O que livra a gente de morrer de uma dor de garganta infernal, acompanhada de febre e entupimento geral das vias respiratórias é o carinho de mãe. Vai dizer que você não sabia disso? O barulhinho do garfo batendo na caneca, o cheirinho do leiteh quenteh derramado no fogão, os passinhos dela se aproximando do quarto e, finalmente, aquela mão quentinha que segura a sua cabeça moribunda e te faz tomar tudinho. Isso é que cura! Que gemada o quê?

Então, quando voce estiver lá na casa da…. onde filho chora e mãe não ouve, não se apresse em fazer a sua própria gemada. Não vai adiantar nada. A não ser que ela te ligue três vezes no dia, a mãe, e te encha o saco pra fazer a merda da gemada, até o ponto que voce perde a paciência e vai, no telefone mesmo, fazendo a gemada pra que ela ouça o tilintar do garfo na caneca. Daí que ela te manda pra cama já, faz questão de saber se você está usando um cobertor grosso (porra, 68ºF lá fora) e te faz tomar tudinho, sem desligar o telefone.

Enquanto você engole aquela vitamina de colesterol, ela te diz gracinhas ao telefone, feito se você tivesse cinco anos de idade outra vez, e você chega muito perto de acreditar que vai ficar bom. Só falta a puxadinha no cobertor e o beijinho na testa. Amanhã eu estarei melhor.

E foi assim que eu fiz minha gemada ontem à noite, e tomei tudinho, com barulhinho no final pra ela ouvir do outro lado.

Boa noite, mãe.

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Está um lindo dia de primavera lá fora. O sol brilhante, a água do laguinho do condomínio limpa e calma, os patinhos passeando, os passarinhos cantando e, sobretudo, as plantas renascendo.

Primavera de verdade eu só conheci faz uns oito anos, quando mudei pra cá, e me apaixonei por ela. Todo ano nós esperamos ansiosos por esse momento, quando colocamos os casacos de inverno lá no fundo do armário, jogamos as botas lá no porão, colocamos sandálias e casaquinhos leves e saimos pra caminhar de mãos dadas.

Mas é tambem final de semestre, e eu tenho vários trabalhos pra entregar nos próximos dias, não tenho tempo pra caminhadas, nem pra ir ver se os ovos de pato lá fora já viraram patinhos, nem pra limpar o jardim que já se mostra rebelde, nem pra sair pra escolher as plantas que adicionaremos esse ano. Ele foi sozinho, andar, sem ninguém pra dar a mão. Provavelmente irá sozinho à loja de plantas também. As aulas só terminam dia 5 de Maio.

Mas está tão perto. Well… eu acabei de me inscrever em duas matérias de verão. As aulas começam dia 18 de Maio e só terminam dia 7 de Agosto.

A primavera, a minha estação favorita, não mais me pertence. Nem o verão me pertence mais.