julho 2009


Alexia_dad

Minha rimã. Era assim que ela me chamava quando era pequenininha. Eu adorava. Minha garotinha, meu bebê. Há quem diga que a gente se parece. Deve ser verdade, o amor faz as pessoas se parecerem fisicamente.

Minha pequena fez 15 anos esse mês e ganhou uma festa linda. Eu não estava lá. O preço de morar longe às vezes é alto demais. Lembrei do seu aniversário de dez anos, quando ela implorou que eu fosse pra festa: “Só um dia, Carla, só um dia. Depois você pega o ônibus de volta pros Estados Unidos.” Também fiquei pensando em quando ela fez 1 aninho. Naquele eu estava, e ela estava tão feliz, tão linda. O sorriso fácil, do mesmo jeitinho de agora. A gargalhada sonora, que ainda hoje contagia as pessoas ao redor. Ela era um bebê que gargalhava muito. Bastava fazer uma gracinha e ela ria, solta, feliz. Um aninho apenas, e já tinha mudado tanto as nossas vidas.

Minha rimãzinha, minha Aléxia, meu formigão está uma moça, uma mistura gostosa de menina e mulher. Está descobrindo coisas com uma rapidez incrível e eu, às vezes, me pego querendo que o tempo pare, achando que está cedo demais pra tudo. Logo eu, que com sua idade já era tão dona de mim, tão independente.

Ela está sempre perguntando com quantos anos eu namorei, com quantos anos eu dirigi, essas coisas de ter um exemplo a seguir. Não quero que ela vá tão rápido quanto eu fui. Quero pedir que demore um pouquinho mais, que é pra gente poder aproveitá-la assim, nesse momento indeciso entre a infância e a juventude.

Feliz aniversário, meu amor. Que você tenha tudo que eu tive, e mais. Que as suas oportunidades sejam ainda mais ricas que as minhas, que as suas escolhas sejam melhores que as minhas. Que a sua transição pra vida adulta seja leve, feliz, sem os percalços que eu tive. Que a dor demore a te encontrar.

Te amo demais.

Na foto, ela, linda, e o bem que dividimos: nosso pai.

Não é fácil ser brasileiro em lugar nenhum, nem no Brasil. A gente leva fama de picareta, de vulgar, de desonesto e, em alguns casos, de caça-fortuna, por ser casada com estrangeiro.

Viajar às vezes é complicado, a gente tem que engolir uns sapinhos aqui e ali. Mas, na maioria das vezes, são apenas os apaixonados por futebol mesmo, e isso dá pra tirar de letra. Eu até brinco que conheço um ou dois jogadores famosos. “Yeah, a gente cresceu na mesma favela.”

Mas às vezes a coisa é feia e a galera passa dos limites. Estava trocando emails com uma pousada em Estoril, Portugal e, quando disse a eles que não daria o número do meu cartão de crédito por email, essa foi a resposta:

“Boa tarde,

O pre-pagamento da primeira noite é uma segurança para nós porque há muito abuso de reservas feitas do Brasil sómente para o efeito de entrar em Portugal. Agosto é época alta aqui e os quartos reservados tem que ser garantidos.
Aguardo as vossas noticias,
Melhores cumprimentos,”
Susan Gouveia
Pousada Pica-Pau
Estoril, Portugal

Eu sou mal educada, falo palavrão, fico com raiva de matar com uma facilidade incrível. Não tenho a menor condição de lidar com gente desse tipo. Nessa horas, é bom que eu não possa alcançar a jugular a pessoa.

Esse periodo na escola tem sido muito desafiante pra mim. O nome da materia que estou fazendo e’:  Student Affairs: Minority Students.

As discussoes acontecem em volta de temas como escravidao, racismo, segregacao, pobreza, discriminacao inversa, e o mandato de affirmative action.

As aulas tem sido emocionalmente intensas, saimos todos cansados, sem energia pra mais nada. Ja teve gente a beira das lagrimas diante de revelacoes historicas sobre racismo na America do Norte. Eu ja fiquei tremendo na minha cadeira, sem poder falar, com medo de sair um discurso emocionado demais. E’ a materia mais importante que ja’ peguei ate’ agora e, infelizmente, apesar de saberem muito sobre o assunto, os professores sao muito desorganizados, o que acaba nos distraindo. Ja tive professores assim antes, mentes ativas demais, prolixas demais. Eles nao sao engenheiros, ainda bem.

Voltarei a falar dessas aulas, com certeza. Mas, por ora, deixo aqui uma frase que tem voltado sempre a baila nesses ultimos dias, nas leituras que tenho feito. Ela foi dita pelo ex-presidente Lyndon Johnson, que assinou o mandato de affirmative action nos Estados Unidos:

“You do not take a person who, for years, has been hobbled by chains and liberate him, bring him up to the starting line of a race and then say, ‘You are free to compete with all the others,’ and still justly believe that you have been completely fair.”

Minha tosca traducao:

“Voce nao pode libertar uma pessoa que, por anos, esteve presa por correntes, coloca-la na linha de partida de uma corrida e dizer: ‘Voce esta livre pra competir com todos os outros,’ e realmente pensar que esta sendo justo.”

Em meio a toda a comoção que ronda o evento do ano,  a morte de Michael Jackson, eu me encontrava pensativa. Fiquei chocada sim quando a notícia saiu, fiquei triste, ele era muito jovem. Mas, em se tratando de M.J., quando é que se é muito jovem pra qualquer coisa, inclusive pra morrer? A vida do cara passou em velocidade máxima, ele provavelmente viveu mais memoráveis (ou deploráveis) eventos do que muitas gente, digo, celebridade, da mesma idade.

Enquanto os blogueiros, os colegas de trabalho, os amigos todos falavam de como tinham sido fãs na adolescência, de quanto ele tinha embalado histórias de festinhas e dramas típicos da idade, que tal música era o máximo, que tal disco marcou época, eu estava era encafifada comigo mesma, sem saber qual seria a minha música favorita.

Isso até o sábado passado quando, nem lembro como, cheguei a esse video. E a coisa enlouqueceu lá em casa. Dancei e cantei feito doida a tarde toda. Sabe aquelas lembranças boas, aquelas que te colocam o sorriso na boca mesmo sem você tê-lo convidado? Então, assim mesmo. Encontrei-a, a minha música.

Modos que, pra celebrar a sua vida, Michael, e a minha juventude, ambas precocemente findas, dançarei ainda muitas vezes ao som dela. And I promise not to stop until I’ve gotten enough. Apparently that’s what you’ve done. Can’t exactly blame you for that.