Passei o fim de semana prolongado sentindo saudades. Cada hora era saudade de uma coisa ou pessoa diferente, mas todas elas situadas na Bahia.

Ontem cismei que o céu azul que tomava conta de Rochester parecia com o céu de Outono de Salvador. Era um azul de fim de tarde, um azul de Solar do Unhão, com um toque de Porto da Barra. A temperatura, quente mas agradável, era igualzinha a de lá nessa epoca. Ken não concordou. Claro que não. Não mora no coração dele a dor quietinha que mora no meu, a dor que de vez em quando desperta e vem me fazer triste. Nessas horas, tudo faz lembrar o lugar de onde vim.

Hoje acordei ainda mais triste e liguei pra algumas pessoas que me são caras, não encontrei ninguém em casa. Era feriado tanto aqui quanto lá. Não adiantava falar com a mãe, não era saudade de mãe. Era saudade  dos meus amigos, de mim mesma, de ser como era antes. Saudades de ser uma pessoa que já nem sou mais.

Mais pro fim da tarde abri pela primeira vez o livro de Sophia de Mello Breyner Andersen, a coisa mais linda e significativa que comprei em Portugal. Chama-se “Dia do Mar”. Nada por acaso, bem na página que abri, estava lá, a  minha poesia favorita em toda a obra de Sophia:

“Mar sonoro, mas sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só pra mim.”

Percebi então que tinha saudades era do mar, e chorei. Chorei a minha dor inteirinha e, com os olhos inchados, fui estudar. Como diz  a minha vozinha: o que não tem remédio, remediado está.