Hoje é aniversario do meu pai.

Liguei de manhã, ele tinha saído muito cedo, tinha ido pra uma área rural, celular fora de área. Empregada nova, pergunta quem é. E’ a filha dele. Ela respondeu: “aaahhh”.

Não esquece de dar o recado, não sei a que horas poderei ligar de novo. Por favor, não esquece. A empregada antiga me conhecia, pra ela eu tinha nome. Mas, ao falar com alguém estranho, volto aos dez anos de idade, quando eu era “a filha dele” e, tanto pra mim quanto pra ele, a identificação bastava.

Pobre da menina, nem me apresentei. Nem falei oi, nem fui simpática. Tomou conta de mim a arrogância que tinha na infância e na adolescência. Arrogância só compreensível numa filha única. Arrogância só exercida em relação ao pai, nunca em relação à mãe. Esqueci que há muito eu não sou “a filha dele”, que há muito fui ganhando irmãos e perdendo a importância. Todos eles, do jeito deles, mais presentes que eu. Será que ele falou de mim pra nova empregada?

Já não sou mais “a filha dele”. Nem sei se ele se importou de eu só ter ligado outra vez às dez da noite, quando cheguei da aula. Não sei se se importou de eu ter falado com ele por apenas dois minutos, a pausa que meu marido me deu na ligação de trabalho que tinha com a China. Não sei se ele lembra de mim, se pensa em mim quando coloca a cabeça no travesseiro. Se sabe de mim, da minha vida, do que eu faço. Mas não importa, foi aniversário dele e nós nos falamos por dois minutos. Fiz o que de mim era esperado. Liguei. Sou eu, pai, a filha que você vê uma vez ao ano, a primeira, a eterna filha única. Lembra de mim?

Feliz aniversário, pai.