novembro 2009


A prova era de Etica. Quase na hora, os alunos todos sentados, alguem entra pra dar um aviso: o professor manda avisar que a prova mudou, sera no predio tal, sala tal. Do outro lado do campus.

Confusao geral, todo mundo sai correndo, com medo de chegar atrasado. O professor e’ exigente com horario.

No caminho, uma menina escorregou e caiu, parece que machucou a perna. Ninguem parou. Um rapaz tenta descer escadas usando muletas. Ninguem ajudou. Todos muito apressados. Na frente da biblioteca, um predio bem antigo, uma mae tenta abrir a pesada porta com seu filhinho no canguru. Ninguem nem reparou.

Chegaram todos ofegantes ao destino, ninguem se atrasou. O professor diz que infelizmente ja tem o resultado dos testes. Todos tiraram zero. O teste estava no caminho, mas ninguem reparou.

A pessoa que faz o que e’ certo, faz mesmo quando ninguem esta olhando. Mesmo quando algo parece ser mais importante.

(Diz a lenda que esse teste aconteceu no campus onde eu trabalho. Mas pode ter acontecido em qualquer campus, ou pode ser apenas uma anedota. E’ parte do folclore da minha universidade.)

Eu divido um grande escritório com uma colega, tem bastante espaço. Eu trabalho com os alunos de mestrado e PhD e ela com os alunos de graduação. Nós duas mantemos uma open door policy que, em português, significa que os alunos sabem que podem entrar no nosso escritório quando quiserem, que podem permanecer aqui o quanto quiserem e que podem falar sobre qualquer assunto.

Limites? Claro. Quando estamos muito ocupadas ou com prazos apertados, somos sempre sinceras. E eles saem ou ficam ali, quietinhos, sem atrapalhar. Muitas vezes saem e voltam com um café, um pedaço de bolo, um agradinho qualquer pra melhorar nosso dia. E’ essa parte do trabalho que faz valer a pena todo dia, o carinho dos alunos. Numa sociedade como essa, que manda os meninos pra faculdade, distante de casa, aos 18 anos, é natural que eles procurem um lugar onde se sintam seguros, procurem pessoas que possam servir de exemplo, ou de porto seguro nas horas difíceis.

Não está na descrição da minha posição, nem da minha colega, lidar com problemas de alunos. Existem escritórios especializados para isso. Mas o que é que se vai fazer se a pessoa se sente confortável aqui? Eu não me furto de tentar ajudar, de ouvir pelo menos, emprestar um ombro. A diferença de idade me dá autoridade bastante pra arriscar alguns conselhos. A clareza com que me lembro dos meus anos de faculdade me dão muita autoridade pra dar conselhos. E eles confiam.

Ontem uma aluna passou mal aqui no escritório. Quase desmaiou, ficou pálida, o diabo. Descobrimos que ela tem horror a médico e que chamar a ambulância só ia piorar tudo. Que fazer? Segurar na mão da menina a manhã toda, claro. E depois convencê-la a ir ao consultório médico no meu carro. Chegando lá: ah, uma de vocês tem que esperar aqui. A mãe tá no Alaska, o irmão na Califórnia. Que fazer? Segurar a mão da menina boa parte da tarde. Faz parte, não está escrito no contrato, mas faz parte. Se fosse filho meu eu ia gostar de saber que alguém ajudou.

Nessas horas que passamos tão próximas, conversamos sobre tudo: bebida, depressão, vida na faculdade, garotos, notas, perda de peso, comida, etc. Descobri que, por ter família longe, ela vai ficar sozinha no quarto no longo feriado que se aproxima. Quando eu digo sozinha, digo sozinha mesmo. No prédio, na universidade. Não fica uma alma viva por aqui. E eu morri de pena, principalmente depois de ouvir sobre os problemas que a assustam no momento. Lá vou eu de novo, segurar na mão dela o feriado todo. Conversei com o marido ontem e ele concordou. Se ela quiser, a gente leva ela pra onde for na próxima semana. Ninguém merece depressão aos 21 anos. Muito menos, quando não tem um ombro amigo por perto.

Salvador 2008 001

“The salt child walked further and further into the water of the great Ocean, dissolving with each step, and at the end exclaimed: ‘Ah, now I know who I am!’”