dezembro 2009


Vim dizer que vou ali, vou beijar minha mae, sentir o cheiro de bolo de aipim ao entrar, abracar minha irma bem apertado e comer acaraje na rua, bebendo coca-cola gelada. Vou sentar no colo da minha avo, e roubar colheradas generosas do mingau de aveia que ela toma toda noite, que e pra ela saber que eu continuo a mesma menina levada e gulosa. Vou andar descalco na areia, sentir a onda molhar meus pes. Vou deixar o vento assanhar meus cabelos, o sol dourar a minha pele e comer peixe frito na praia. Vou ver meu avo, porque sempre pode ser nunca mais. Vou ouvir as historias do meu pai enquanto dividimos uma carne do sol com aipim, depois de desbravarmos um pedaco de terra nunca visitado. Vou dizer a meus amigos o quanto senti saudades, e sentir o cheiro deles num abraco demorado. Vou beber agua de coco, e comer camarao, ouvir o barulho das ondas, me espantar com a alegria das pessoas, beijar as criancas. Vou, dessa vez, juro, descobrir a secreta receita da moqueca da tia Julia, e vou ver o Ile passar. Vou comer a quiabada da tia Lourdes, espiar ela costurar, ouvir os meninos gritando naquela casa onde tantas memorias vivem, e criancas nao mais. Vou sentar na varanda e observar a favelinha, contar as casas, ver o povo que me e familiar, saber quem nasceu e quem morreu. Vou ali, rever minha casa, sentir o cheiro da minha gente, o calor e a poeira da minha cidade. Vou me lembrar de quem eu fui, pra nunca me esquecer quem eu realmente sou. Depois eu volto, que jeito nao tenho a dar.

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Ontem à noite teve discurso do presidente sobre as atuais guerras. Ele anunciou como e quando pretende acabar com as guerras do Iraque e do Afeganistão, coisas de extrema importância para a população Americana. Mas veja você no que o cidadão se apega.

Hoje de manhã… Todo mundo no escritório, primeiro café do dia fumegando na xícara, papo rolando, botando as notícias em dia, acontece o seguinte diálogo:

J.M.: Você viu o discurso do Obama ontem à noite?

Eu: Vi sim, claro. E aí, o que você achou? (eu sei que ela é muito a favor da guerra)

J.M.: Menina, os lábios do cara são azuis! Que absurdo! Será que é porque ele perdeu muito peso? Tá parecendo que tá doente.

Eu: ????? Como assim doente, menina? O cara é negro, os labios são pretos. O que tem isso a ver com peso?

J.M.: Pretos não, azuis. Um negócio esquisito!

C.P.: Eu tambem achei, que agonia ficar olhando pra ele. Será que nao dava pra botar um batomzinho nele não?

Eu: ?????? (com cara de quem tomou uma pedrada)

C.P.: O quê? Você não sabe que todos eles usam maquiagem não?

Eu: Sei, sim. Claro que sei. Sei também que você quer o lábio do cara com batom que é pra você ver menos preto na cara dele, né? Porque preto daquele jeito incomoda. Um batomzinho rosa, será? Rosa bebê? Ou um mais escuro?

E é nessas horas que eu agradeço ser uma pessoa que fala outra língua. Porque sai um ‘vai tomar no cu’ bem discreto, em português, e ninguem sabe que porra eu estou falando. Porque eu não tenho educação nenhuma, mas tenho que manter as aparências no trabalho.

Minha nossa! Onde é que eu vim me meter, que diabos de fim de mundo do cacete é esse? Me dê um tiro na cabeça. BATOM na boca de Obama!!! Caralho!

E eis que, a primeiro de Dezembro de dois mil e nove, ela, a merda branca, finalmente chegou. Você até pode achar que eu sou louca, que a coisa branca é linda, o que automaticamente lhe rende um convite a passar um mês de inverno, só um, na minha cidade. Mas não vale Dezembro, tem que ser Janeiro ou Fevereiro. Daí você, caro leitor silencioso, irá entender a minha eterna briga com ela.

Fotos tiradas por A.C. hoje pela manhã, no caminho pro trabalho, no parque vizinho ao campus.