Vim dizer que vou ali, vou beijar minha mae, sentir o cheiro de bolo de aipim ao entrar, abracar minha irma bem apertado e comer acaraje na rua, bebendo coca-cola gelada. Vou sentar no colo da minha avo, e roubar colheradas generosas do mingau de aveia que ela toma toda noite, que e pra ela saber que eu continuo a mesma menina levada e gulosa. Vou andar descalco na areia, sentir a onda molhar meus pes. Vou deixar o vento assanhar meus cabelos, o sol dourar a minha pele e comer peixe frito na praia. Vou ver meu avo, porque sempre pode ser nunca mais. Vou ouvir as historias do meu pai enquanto dividimos uma carne do sol com aipim, depois de desbravarmos um pedaco de terra nunca visitado. Vou dizer a meus amigos o quanto senti saudades, e sentir o cheiro deles num abraco demorado. Vou beber agua de coco, e comer camarao, ouvir o barulho das ondas, me espantar com a alegria das pessoas, beijar as criancas. Vou, dessa vez, juro, descobrir a secreta receita da moqueca da tia Julia, e vou ver o Ile passar. Vou comer a quiabada da tia Lourdes, espiar ela costurar, ouvir os meninos gritando naquela casa onde tantas memorias vivem, e criancas nao mais. Vou sentar na varanda e observar a favelinha, contar as casas, ver o povo que me e familiar, saber quem nasceu e quem morreu. Vou ali, rever minha casa, sentir o cheiro da minha gente, o calor e a poeira da minha cidade. Vou me lembrar de quem eu fui, pra nunca me esquecer quem eu realmente sou. Depois eu volto, que jeito nao tenho a dar.