janeiro 2010


Eu fui avisada faz tempo que, chegando ao meio do programa de mestrado esse papo de tirar ferias longas, ir pro Brasil e esquecer de tudo ia acabar. Mas eu nao ouvi, porque eu nunca fui muito boa de ouvir conselhos, e achei uma bobagem ficar me preocupando com tese durante as ferias.

Well, well, well… tirei minhas belas ferias, pensei muito pouco em coisas importantes, cheguei aqui e pimba! Mudei o assunto da tese. Continuo na area de diversidade, mas nao vou mais escrever sobre alunos estrangeiros e sim sobre a presenca feminina no corpo docente. Eu sabia fazia tempo que tinha um material fantastico sobre isso na internet, no blog de uma materia que peguei no ano passado. Tipo de coisa que ia me economizar uns dois meses de pesquisa.

Mas claro que tinha prazo de validade, o blog ia sair do ar em fevereiro, eu pensei. Dai que eu entrei hoje e… adeusinho. Nao era fevereiro, era janeiro. E eu saberia disso se estivesse minimamente preocupada com minha tese nas ultimas semanas. Agora eu queria saber de onde vem uma vozinha irritante na minha cabeca repetindo: “se fudeu, se fudeu, se fudeu…”

Mas quem e que gosta de coisa facil, ne? O bom e quando e bem dificil, quando a gente se estrupica toda pra conseguir. Vamos a luta que o tempo e curto.

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Viver longe de casa tem nuances que a gente só vai descobrindo com o tempo, e desafios novos que se apresentam a cada transição. Ir à Bahia, pra mim, não é simplesmente tirar férias pra curtir praia, apesar de eu brigar com qualquer um que queira interferir na minha rotinha de praia dia-sim-dia-não. E’ um exercício de readaptação, um teste de tolerância, uma medição do grau de baianidade que ainda existe em mim. Então, aqui vão algumas observaçõoes que podem ser apenas constataçõoes,  ou coisas que me irritaram muito. Ou ainda coisas agradáveis que me fizeram querer morar lá de novo.

1. Brasileiro fala da vida dos outros com uma propriedade, uma intimidade, um direito de interferir que me dá vontade de estrangular. Perco o interesse na conversa depois de dois minutos falando da vida de alguém, e se for pra dar opinião na minha vida, aí então eu tenho instinto assassino.

2. Calor dá tesão. E eu tenho amigas(os) que dizem que naquele calor não querem nem saber de ninguém por perto. Mas, me dê licença de comparar: frio de -15º lá fora, edredon pesadão, pijama (pra quem usa), meia e o escambau – eu quero ver quem é que consegue pensar em sexo.

3. A medida que os anos passam as verdadeiras amizades se fortalecem, o grupo de amigos se define, vai ficando coeso e concentrado. Sim, isso significa menor, mas muito mais significante. Ser amigo à distancia dá trabalho e requer muito afeto.

4. Em contrapartida, as relações familiares se complicam porque, todo mundo sabe, família é aquele grupo de pessoas que a gente não escolheu mas tem que tolerar. Quando distantes, nos tornamos quase estranhos pra aqueles que nos tinham como obrigação familiar, e vice-versa.

5. No calor a pessoa sua, e suor não é uma coisa necessária. No calor de Salvador a pessoa não consegue beber vinho tinto sem perder o juízo, e isso muito me amofina. No calor eu não consigo me arrumar e ficar arrumada, eu fico um lixo rapidinho.

6. Quando foi mesmo que Salvador começou cobrar os preços escandalosos que cobra em comida de restaurante? Se fosse pra falar só de restaurante arrumado tudo bem, mas vamos falar de pizza? Cheiro de Pizza, duas, grandes, entregues em casa: $90 reais!!! Boteco do França, Rio Vermelho, 38 reais num prato de carne seca com macaxeira e 9 reais numa jarrinha de água de coco. Sem mais.

7. Perdi completamente a noção do valor do real. Deve ser porque não faço idéia de quanto as pessoas ganham. Me sinto incapaz de voltar a viver lá quando constato que uma noite do jeitinho que eu gosto custa uns 100 reais por pessoa, uma camiseta basica uns 50 reais (no shopping, que fique claro, eu conheço os outros canais), um vestidinho 100 reais.

8. Tenho inveja de me cortar da quantidade de feriados na Bahia. Caras, trabalhar daquele jeito não parece tão ruim, parece? A gente fica só contando os dias que faltam pra ter folga de novo. Só ficaria melhor se eles adotassem o esquema americano de jogar todos os feriados pras segundas feiras da mesma semana, seria bom inclusive pra indústria do turismo.

9. Eu amo Salvador, mas ela é suja e feia no dia-a-dia. A frente do Glauber Rocha fedendo a xixi num dia de show ali do lado, cheio de turistas, é de matar a gente de vergonha, e de estragar a beleza do lugar. Sou a favor da polícia começar a multar mijadores de rua. Os prédios antigos com pinturas desbotadas, descascando, até mesmo em áreas que já foram revitalizadas mostra nosso despreparo pra lidar com o tesouro que é aquela cidade.

10. Barraquinhas de frutas nas ruas, onde quer que se vá, é uma coisa que me emociona. Eu fico besta, babando na blusa, quando vejo uma barraquinha cheia de delícias, quero comprar tudo. Mas os legumes e verduras… a gente tem que ir longe pra achar um espinafre verdinho, um tomate vermelhinho. Não se pode ter tudo.

Das coisas mais lindas que eu fiz nessa viagem ao Brasil, uma delas foi dormir assim, de cara pro mar. Barra Grande, na peninsula de Marau, tem essa cara ai. E eu me apaixonei.

Era nossa segunda noite la, uma terrivel tempestade tinha nos acordado do sono cansado, nao havia energia. Abrimos cortinas e portas pra assistir ao ceu se zangar com o oceano no meio da noite. Adormecemos. Quando acordamos de manha nao contei conversa, agarrei a camera e tirei essa foto dali mesmo, deitada, com alguma ajuda do zoom, porque o quarto era grande. A vista da nossa cama king size era essa mesmo, fariseus.

Eu nao quero posses, eu nao quero poder, eu nao quero nome. Riqueza pra mim e’ poder acordar ouvindo o mar, e olhar pra ele de soslaio pra ver se vai dar praia.