Viver longe de casa tem nuances que a gente só vai descobrindo com o tempo, e desafios novos que se apresentam a cada transição. Ir à Bahia, pra mim, não é simplesmente tirar férias pra curtir praia, apesar de eu brigar com qualquer um que queira interferir na minha rotinha de praia dia-sim-dia-não. E’ um exercício de readaptação, um teste de tolerância, uma medição do grau de baianidade que ainda existe em mim. Então, aqui vão algumas observaçõoes que podem ser apenas constataçõoes,  ou coisas que me irritaram muito. Ou ainda coisas agradáveis que me fizeram querer morar lá de novo.

1. Brasileiro fala da vida dos outros com uma propriedade, uma intimidade, um direito de interferir que me dá vontade de estrangular. Perco o interesse na conversa depois de dois minutos falando da vida de alguém, e se for pra dar opinião na minha vida, aí então eu tenho instinto assassino.

2. Calor dá tesão. E eu tenho amigas(os) que dizem que naquele calor não querem nem saber de ninguém por perto. Mas, me dê licença de comparar: frio de -15º lá fora, edredon pesadão, pijama (pra quem usa), meia e o escambau – eu quero ver quem é que consegue pensar em sexo.

3. A medida que os anos passam as verdadeiras amizades se fortalecem, o grupo de amigos se define, vai ficando coeso e concentrado. Sim, isso significa menor, mas muito mais significante. Ser amigo à distancia dá trabalho e requer muito afeto.

4. Em contrapartida, as relações familiares se complicam porque, todo mundo sabe, família é aquele grupo de pessoas que a gente não escolheu mas tem que tolerar. Quando distantes, nos tornamos quase estranhos pra aqueles que nos tinham como obrigação familiar, e vice-versa.

5. No calor a pessoa sua, e suor não é uma coisa necessária. No calor de Salvador a pessoa não consegue beber vinho tinto sem perder o juízo, e isso muito me amofina. No calor eu não consigo me arrumar e ficar arrumada, eu fico um lixo rapidinho.

6. Quando foi mesmo que Salvador começou cobrar os preços escandalosos que cobra em comida de restaurante? Se fosse pra falar só de restaurante arrumado tudo bem, mas vamos falar de pizza? Cheiro de Pizza, duas, grandes, entregues em casa: $90 reais!!! Boteco do França, Rio Vermelho, 38 reais num prato de carne seca com macaxeira e 9 reais numa jarrinha de água de coco. Sem mais.

7. Perdi completamente a noção do valor do real. Deve ser porque não faço idéia de quanto as pessoas ganham. Me sinto incapaz de voltar a viver lá quando constato que uma noite do jeitinho que eu gosto custa uns 100 reais por pessoa, uma camiseta basica uns 50 reais (no shopping, que fique claro, eu conheço os outros canais), um vestidinho 100 reais.

8. Tenho inveja de me cortar da quantidade de feriados na Bahia. Caras, trabalhar daquele jeito não parece tão ruim, parece? A gente fica só contando os dias que faltam pra ter folga de novo. Só ficaria melhor se eles adotassem o esquema americano de jogar todos os feriados pras segundas feiras da mesma semana, seria bom inclusive pra indústria do turismo.

9. Eu amo Salvador, mas ela é suja e feia no dia-a-dia. A frente do Glauber Rocha fedendo a xixi num dia de show ali do lado, cheio de turistas, é de matar a gente de vergonha, e de estragar a beleza do lugar. Sou a favor da polícia começar a multar mijadores de rua. Os prédios antigos com pinturas desbotadas, descascando, até mesmo em áreas que já foram revitalizadas mostra nosso despreparo pra lidar com o tesouro que é aquela cidade.

10. Barraquinhas de frutas nas ruas, onde quer que se vá, é uma coisa que me emociona. Eu fico besta, babando na blusa, quando vejo uma barraquinha cheia de delícias, quero comprar tudo. Mas os legumes e verduras… a gente tem que ir longe pra achar um espinafre verdinho, um tomate vermelhinho. Não se pode ter tudo.