fevereiro 2010


Pra quem le ingles, aqui um post curto e direto sobre feminismo e as ideias radicais em torno disso. Minha parte favorita foi essa imagem aqui, que eu vou usar sempre:

Traducao: Feminismo e’ a ideia radical de que mulheres sao pessoas.

Eu nunca gostei de rotulos, muito menos de me classificar nesse ou naquele grupo. Mas, com o tempo, certas conviccoes se fazem evidentes e a gente passa a se compreender melhor. Me dizer feminista aos vinte anos tinha um significado diferente do que tem agora, por isso eu me sinto muito mais confortavel usando a palavra.

Nessa ultima viagem ao Brasil, pela primeira vez eu me declarei feminista a um homem machista que queria me convencer de suas teorias malucas sob a desculpa esfarrapada de “eu sou gay, portanto, nao estou falando isso munido de nenhum preconceito”. Ora, ora, ora, fosse assim os asiaticos nao discriminariam ninguem, nao existiriam negros homofobicos ou mulheres machistas. Foi quando ele declarou isso que eu nao segurei e disse:

“Eu sou feminista, e voce nao vai me convencer de  que essas asneiras todas que diz fazem sentido algum.”

Ao ouvir a palavra proibida, ele se calou e a conversa morreu ali. E eu me senti muito leve de me colocar perfeitamente bem em um grupo que tem nome e identidade. Eu sou feminista. Ponto final.

Mais uma vez a Globo me surpreende. E me surpreende muito mais a capacidade do povo brasileiro de confundir ficção com realidade, de viver na pele de outra pessoa toda noite. Eu fico imaginando cada dona de casa, cada marido, cada mãe, cada mulher que trabalha, cada jovem sonhadora a frente da tv, todos os dias, vendo novela, assumindo um daqueles personagens como se fosse um amigo, um namorado, ou assumindo a vida de um deles como se sua fosse.

Faz tempo me parece que o brasileiro mediano, sem muita educação, só tem noção do que acontece no mundo pelas lentes de Gloria Perez e de Maneco, dois novelistas que adoram incluir pseudo criticas sociais e dramas humanos nas suas obras. E que lentes são essas? Porque eu devo acreditar no que eles estão me dizendo? Não há diversidade na fonte de informação, então todo mundo aprende o que passa na novela como verdade absoluta. E eu compreendo, não é razoável esperar esperar de um monte de gente com pouca ou nenhuma educação que se preocupem em criticar ou analisar o que lhe está sendo informado. Mas eu conheço muita gente que tem um tiquinho mais de capacidade intelectual e repete bordões novelisticos o tempo todo. Esses eu não perdoo (com acento ou sem acento?) não, sinto muito.

Mas, vamos ao assunto do post: A Luciana, uma personagem da novela das oito que era modelo mas se tornou paraplégica, ganhou de presente da irmã um blog. Descobri isso no site da Globo. O que eu não esperava era que o blog realmente existisse. Está lá, recheado de fotos dela e já tem um post supostamente escrito pela personagem, que não existe, portanto não escreve. O que mais me chocou foi ver a quantidade de comentários, muitos referindo-se a Luciana como uma pessoa lutadora, que persevera, “um exemplo de superação”. Pra mim, tem alguma coisa errada com o cérebro da pessoa que entra num blog de uma personagem, faz um comentário e ainda trata essa personagem como uma pessoa real.

Televisão e um negócio perigoso, uma arma que, se colocada nas mãos de quem tem intenções levianas, pode causar grandes danos. Mas ela também pode funcionar a nosso favor se fizermos as escolhas certas. Eu sei que tem muita gente no Brasil que, ainda que recentemente, tem acesso a televisão a cabo. Procurando, tem muita coisa boa por lá, mas as pessoas precisam reagir e apertar aquele botão, elas precisam ter a atitude de mudar de canal. A não ser que seja mesmo muito tarde, que a Globo e suas telenovelas já tenham amolecido os cérebros dos seus telespectadores a tal ponto que eles não sejam mais capazes de reagir, tenham se tornado reféns voluntários do longo processo de manipulação do pensamento que a telenovela vem exercendo sobre eles. Os telespectadores brasileiros parecem hipnotizados pelos seus personagens favoritos e preferem ficar lá, vivendo a vida da Luciana que, mesmo depois de ter ficado paraplégica, parece mais glamourosa que a sua própria.

O câncer do Brasil é definitivamente a telenovela.

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