março 2010


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Eu hoje decidi que estou velha demais, mal humorada demais pra ficar lutando batalhas perdidas. Decidi que vou fazer um esforcinho extra pra nao me estressar com as pessoas, principalmente as pessoas com quem nao tenho relacoes estreitas. Acho que a vida pode ser bem mais facil e feliz assim.

O leitorzinho amigo deve estar se perguntando se eu estou com febre, ne? Se ta tudo bem com a minha cuca. Nao e’ nada disso nao. E’ que cansa, enche o saco, e a gente perde tempo tentando mudar coisas que sao imutaveis. Eu nao estou aqui pra educar adulto. Se eles foram porcamente educados, paciencia. Eu nao tenho nada a ver com isso.

Ta bom, eu vou parar de conversa mole e contar logo o que aconteceu. Estavamos eu e uma outra pessoa numa lojinha de coisas fofas pra festa comprando items de decoracao pra um evento que faremos juntas. Guardanapo vai, toalha de mesa vem, nao gostamos de uma determinada combinacao, sabe? Tava meio brega, meio floral demais, meio chinfrin. Dai a pessoa deu o veredicto: esse nao, ta muito baianinho. Veja bem, eu nao sei se nesse caso devo usar o h ou nao. Pergunte aos miseraveis que usam essa palavra com intencao de achincalhar alguem ou alguma coisa.

Que que eu fiz? Nada! Olhei pra ela, ela olhou pra mim, me fez um afago no ombro e disse: e’ o jeitinho da gente falar, ne? Eu agarrei outra toalha e disse que era aquela que eu queria. Pronto. Acabou a conversa.

Nao, leitorzinho. Eu nao mandei ninguem tomar no cu, eu nao disse desaforo nenhum, eu nao amaldicoei ninguem nem fiz sermao. Estou velha. E cansada. Quero mais e’ que o mundo exploda.

Vamos começar por explicar aos meus pobres leitores que diabos vem a ser o Brazil Butt Lift Workout, né? Ninguém é obrigado a conhecer. Se você lê Inglês, não precisa da minha ajuda, é só clicar no link e se divertir. Se você não entende, então, sinto muito, está a mercê do meu julgamento…hahahaha!

O maravilhoso Brazil Butt Lift Workout é exatamente o que o nome diz: um programa pra levantar e endurecer a bunda, uma coisa que interessa a toda brasileira, né? Claaaaro. Como a mulher brasileira tem fama de bonita e gostosa, às vezes só de gostosa mesmo, nada melhor do que lançar no mercado um produto que promete às gringas a mesma buzanfa rebolativa que mucho encanta sus maridos, não é mesmo? Claaaro. O único problema aqui é que eu não conheço americana nenhuma que queira rebolar-se na sala de casa até criar uma bunda igualzinha a das brasileiras, elas admiram mas não estão interessadas em adquirir. Bunda aqui é muito mais coisa de mulher negra, mulher branca bota peito e pinta o cabelo de louro. Modos que eu não sei qual é o público que compra um programa desses. Mas isso, claro, é na província onde vivo, quem sou eu pra generalizar um pais desse tamanho.

O Leandro Carvalho, um dançarino brasileiro tranformado em personal trainer, é também criador do Brazil Butt Lift. Eu nunca tinha ouvido falar no nome dele até ver o infomercial na TV outro dia. Veja bem, eu nunca comprei coisa nenhuma baseado em infomercials. Nunca. Eu via o comercial e pensava: voltar a ter a mesma bunda de quando eu tinha vinte anos, voltar a ter uma barriguinha digna de mostrar na praia, me livrar desses quilos que pensam que me pertencem… comprei.

Primeiro dia com meu Butt Lift em casa, coloquei um dos DVDs e morri na praia. 17 minutos depois eu não me pertencia mais, as pernas bambas, os músculos tremulos e o coração pulsando forte. Não consegui terminar a meia hora do primeiro treinamento, ainda bem que não tinha ninguém em casa pra presenciar minha vergonha. O que também era um sinal de que Leandro sabe o que está fazendo. Terminar qualquer circuito de malhação de primeirona não é um bom sinal nunca. Nesse caso, falhar foi ponto positivo, pro programa não pra mim. O infomercial promete resultados em um mês, mas eu nunca vou saber se funciona mesmo, porque eu não tenho tempo de malhar mais que duas vezes por semana.

Finalmente, foi paixão à primeira vista. Hoje eu sou todinha do Leandro Carvalho : bunda, perna barriga, tudo pertence a ele. E’ feito vender a alma ao diabo, só que nesse caso quem pagou fui eu. Tipos, deixa que ele cuida, e o resto se resolve. Ainda não perdi uma grama, mas é tudo culpa minha.

Ah, uns detalhezinhos bestas que, no fim das contas, não diminui a qualidade do serviço prestado: No DVD, ele diz que está em Copacabana mas está mesmo é em Miami. A música é um cocô, o estúdio é paupérrimo e o Leandro toca nas meninas. Nos Estados Unidos ninguém encosta a mão, fio. Te cuida.

Acabei de ver Precious, o filme. Faz umas 2 horas que meus olhos nao secam. Nao um choro constante, de solucar, mas uma lagrimazinha secreta que aparece no cantinho do olho. Meu coracao esta em pedacinhos miudinhos, e doi pra caralho.

Nao me lembro de ter terminado um filme tao arrebentada emocionalmente. Parece que tomei uma surra. A historia de Precious e’ feito um monstro de garras afiadas, maos enormes, sujas, que vao se enfiando pela sua garganta abaixo a procura do resto de humanidade que existe em voce. Ainda que voce tenha escondido o restinho nas profundezas dos infernos da sua vidinha egoista, o monstro vai la e acha o bocadinho de gente que existe em voce. Mas nao grite de dor porque funcking nobody ain’t coming to fucking help you, ‘cause you are a piece of fucking worthless crap.

Eu sei, sem precisar ler pesquisa academica nenhuma, que tem muitas garotas como a Precious perambulando por ai. Elas estao ali, na fila do supermercado, sentadas ao meu lado no onibus, e eu nao as vejo. Voce tambem nao as ve. Elas sao invisiveis. Quando chegamos a enxergar uma delas, a garota de 16 anos, negra, gorda, pobre e gravida, saindo do McDonalds com seu balde de coca-cola na mao, com certeza a julgamos imediatamente. Olhamos pra ela e construimos a historia daquela gravidez todinha, como se fossemos capazes, sem parar pra notar a tristeza, o horror, o medo, a humilhacao ali nos seus olhinhos de menina.

Eu nao consigo mais falar, pensar, escrever sobre desse filme. Tenho que, de alguma forma, me livrar dele e conseguir dormir. Ate porque, daqui do meu castelo, nao ha nada que eu possa fazer nesse momento pra aliviar o sofrimento das meninas Precious que, nesse momento, sofrem sua dor maior.

Se nao viu, veja. E’ necessario. Mas segure a merda de sua onda porque o barato nao e’ moleza nao. Viaje na fantasia criada por Precious, e’ o unico jeito de voce aguentar o filme. Depois nao diga que nao avisei.

Vale a pena ver esse post do Ricardo Freire sobre encomendas de viagem, essa instituição brasileira que causa tantos problemas de relacionamento. A galera abusa, enche o saco, passa dos limites. Quando você faz a primeira viagem ao exterior, a última coisa que você quer é ter que parar em cada farmácia pra procurar aquela pilulinha pra dor de cabeça que sua tia pediu. E se você é o tipo de turista que não gosta de fazer compras, como fica? Se você m0ra nos Estados Unidos então, valha-me, o povo pensa que você não tem o que fazer da vida e que só vive em shopping center passeando.

Meu marido trabalhou no Brasil por dois anos. Naquele tempo, ele viajava todo mês pros EUA. Cada vez ele vinha com uma lista maior. Mais de uma vez encomendas foram roubadas da mala dele, a pessoa que tinha feito o pedido nunca se manifestou pra sequer dividir o prejuizo. Noutras vezes a pessoa resolvia pagar a prestação, por conta dela mesma, sem perguntar. Ou resolvia pagar a metade e esquecer o resto. Era um absurdo.

Eu já passei por vários constrangimentos morando aqui. A gota d’água foi quando alguém me pediu um perfume e achou muito caro, porque fulano tinha comprado em Miami mais barato. Eu, essa pessoa delicada, cheia de tato, ouvir um negócio desses??? Disse a ele que na próxima vez pedisse a fulano, porque eu tenho mais o que fazer do que ficar pesquisando preço de perfuminho pra quem quer que seja. A galera conhece minha delicadeza, me provoca porque quer.

Hoje eu tenho minhas regrinhas e, se você quer ser meu amigo pra todo o sempre, siga a seguinte fórmula:

1. Me peça com antecedência, avise o que é, o tamanho, o peso, todos os detalhes.

2. Compre sua muamba na Amazon, no Ebay, na Target online, onde for, mas pague com seu lindo cartãozinho de crédito e mande pra minha casa. Se você é meu amigo sabe que eu não tenho tempo.

3. Nunca, em tempo algum, me peça pra levar lap-top. E’ caro, é pesado, tem que levar na mão e me estressa. Muito menos se você é meu ex-marido e eu não te vejo faz oito anos. Oi! Se liga.

4. Não me peça pra mandar muamba pelo correio. E’ caro, dá trabalho, enche o saco, e você vai me pagar como mesmo?

5. Seja delicado(a) e agradeça. Se eu levei encomenda pra você é porque eu te amo, juro, de verdade. Porque pra quem não me interessa eu digo não quase sempre.

6. Não tente me dar o golpe da barriga. Minhas amigas resolvem ter filho e eu que vou carregar o assento de carro, a cadeirinha de alimentar, o carrinho ou que diabos mais pode ser, só porque os daqui são melhores? Se toca, cara-pálida, nem filho eu tenho.

7. Se você seguiu as regrinhas todas e eu te disse que não é porque não tem espaço mala, ou sua encomenda é muito grande ou muito pesada. Mas eu te amo mesmo assim, e no ano que vem você pode tentar de novo.

8. Assim que eu chegar ao Brasil, vá buscar suas tralhas. Eu chego na casa da minha mãe carregada de malas, cheia de muamba, num apartamento de dois quartos isso faz muita diferença. A maior prova de sua amizade é você ir buscar as coisas, me pagar na hora (na moeda que eu preferir), e ainda me levar pra tomar uma cervejinha no Rio Vermelho pra matar as saudades.

Com essas regrinhas, nossa amizade vai longe. Tem um monte de gente que é cliente antigo e eu tenho o maior prazer em levar as coisas pra eles. Já saí de minha casa, no dia antes da viagem, debaixo de neve, esbravejando, pra comprar uma porcaria de uma bolsa da guess pra uma amiga.  Quem cativa, tem tratamento vip. O que não significa que eu não vou reclamar, né? Então não seria eu.

Esta rosa eu dispenso em nome das mulheres vitimas de discriminacao pela sua condicao de mulher, em nome das vitimas de abuso sexual, das vitimas de crimes motivados por ciumes, das vitimas de violencia domestica, de abuso sexual no ambiente de trabalho, das vitimas de pequenos comentarios maldosos nas ruas todos os dias, das vitimas de assassinato por seus companheiros. Esta rosa eu dispenso em solidariedade a todas as mulheres que racham de trabalhar e continuam ganhando menos, as maes e ex-esposas que tem seu direito desrespeitado, as que pagam a conta e ainda sao tratadas com inferioridade, a todas que ja foram desrespeitadas por conta do seu sexo em qualquer situacao.

O dia da mulher nao e um dia feliz, portanto nao me de os parabens, nem flores. No minimo, me ofereca seu respeito, sua solidariedade, sua simpatia por uma causa que esta longe de ser resolvida.

Eu preferia que esse dia nao precisasse existir, um dia que deveria ser de protesto e que, num equivoco, e’ tratado como dia de celebracao. Nao ha o que celebrar enquanto nao houver igualdade.

A foto eu colei do blog da Dani, que escreveu um post irado no ano passado sobre o assunto.