Vale a pena ver esse post do Ricardo Freire sobre encomendas de viagem, essa instituição brasileira que causa tantos problemas de relacionamento. A galera abusa, enche o saco, passa dos limites. Quando você faz a primeira viagem ao exterior, a última coisa que você quer é ter que parar em cada farmácia pra procurar aquela pilulinha pra dor de cabeça que sua tia pediu. E se você é o tipo de turista que não gosta de fazer compras, como fica? Se você m0ra nos Estados Unidos então, valha-me, o povo pensa que você não tem o que fazer da vida e que só vive em shopping center passeando.

Meu marido trabalhou no Brasil por dois anos. Naquele tempo, ele viajava todo mês pros EUA. Cada vez ele vinha com uma lista maior. Mais de uma vez encomendas foram roubadas da mala dele, a pessoa que tinha feito o pedido nunca se manifestou pra sequer dividir o prejuizo. Noutras vezes a pessoa resolvia pagar a prestação, por conta dela mesma, sem perguntar. Ou resolvia pagar a metade e esquecer o resto. Era um absurdo.

Eu já passei por vários constrangimentos morando aqui. A gota d’água foi quando alguém me pediu um perfume e achou muito caro, porque fulano tinha comprado em Miami mais barato. Eu, essa pessoa delicada, cheia de tato, ouvir um negócio desses??? Disse a ele que na próxima vez pedisse a fulano, porque eu tenho mais o que fazer do que ficar pesquisando preço de perfuminho pra quem quer que seja. A galera conhece minha delicadeza, me provoca porque quer.

Hoje eu tenho minhas regrinhas e, se você quer ser meu amigo pra todo o sempre, siga a seguinte fórmula:

1. Me peça com antecedência, avise o que é, o tamanho, o peso, todos os detalhes.

2. Compre sua muamba na Amazon, no Ebay, na Target online, onde for, mas pague com seu lindo cartãozinho de crédito e mande pra minha casa. Se você é meu amigo sabe que eu não tenho tempo.

3. Nunca, em tempo algum, me peça pra levar lap-top. E’ caro, é pesado, tem que levar na mão e me estressa. Muito menos se você é meu ex-marido e eu não te vejo faz oito anos. Oi! Se liga.

4. Não me peça pra mandar muamba pelo correio. E’ caro, dá trabalho, enche o saco, e você vai me pagar como mesmo?

5. Seja delicado(a) e agradeça. Se eu levei encomenda pra você é porque eu te amo, juro, de verdade. Porque pra quem não me interessa eu digo não quase sempre.

6. Não tente me dar o golpe da barriga. Minhas amigas resolvem ter filho e eu que vou carregar o assento de carro, a cadeirinha de alimentar, o carrinho ou que diabos mais pode ser, só porque os daqui são melhores? Se toca, cara-pálida, nem filho eu tenho.

7. Se você seguiu as regrinhas todas e eu te disse que não é porque não tem espaço mala, ou sua encomenda é muito grande ou muito pesada. Mas eu te amo mesmo assim, e no ano que vem você pode tentar de novo.

8. Assim que eu chegar ao Brasil, vá buscar suas tralhas. Eu chego na casa da minha mãe carregada de malas, cheia de muamba, num apartamento de dois quartos isso faz muita diferença. A maior prova de sua amizade é você ir buscar as coisas, me pagar na hora (na moeda que eu preferir), e ainda me levar pra tomar uma cervejinha no Rio Vermelho pra matar as saudades.

Com essas regrinhas, nossa amizade vai longe. Tem um monte de gente que é cliente antigo e eu tenho o maior prazer em levar as coisas pra eles. Já saí de minha casa, no dia antes da viagem, debaixo de neve, esbravejando, pra comprar uma porcaria de uma bolsa da guess pra uma amiga.  Quem cativa, tem tratamento vip. O que não significa que eu não vou reclamar, né? Então não seria eu.