abril 2010


…eu virava a noite na emergencia do hospital da universidade.

Sai de casa no meu melhor vestido, no salto mais alto, batom e perfume. Seria uma noite memoravel, como todo ano. Um delicioso jantar, bons vinhos e, ao final, os alunos do quarto ano montam um teatrinho pra tirar sarro com os professores e com a gente tambem. Depois disso, DJ e arrasta-pe ate tarde.

A diferenca e’ que, de todas as classes que eu vi formar, essa e’ especial. Todo mundo e’ muito unido, muito amigo, muito proximo. Sao tambem muito proximos de nos, e’ como se tivessemos varios filhos e irmaos se formando. Entao, esse ano seria um ano especial, emocionante ate. E foi. Terminou as 3 da manha. No hospital.

Ela chegou toda linda, toda orgulhosa do sapato estilo barbie, na cor pink, que compramos juntas na noite anterior. Esteve numa outra festinha antes, bebeu cerveja. E ela quase nao come, tem medo de engordar. Jantou na nossa mesa, ate comeu direitinho, mas o vinho descia com facilidade. Avisei: da um tempo. Mas, na hora do teatrinho, ela sumiu. Procurei, nao encontrei, so a bolsa e as chaves do carro. Ainda bem. Quando a musica comecou, procurei de novo. Encontrei-a jogada no sofa, apoiada por dois colegas. Estava irreparavelmente bebada, e eu fui extremamente dura com os meninos. O QUE FOI QUE ELA CONSUMIU??? QUEM DEU??? VOCE BEBEU COM ELA???? Nao, nao, nao. Coitados. Nao tinham feito nada com ela, encontraram-na ja naquele estado. Mas eu precisava coloca-los na parede e ver que tipo de resposta saia.

A partir dai o drama so aumentou. Os funcionarios do local do evento precisavam chamar a seguranca, era parte do trabalho deles. Eu precisava ligar pra mae dela, apesar da autoridade dos seus 21 anos. Eu moro aqui, mas nao acredito nessa merda dessa independencia tao cedo, a mae precisava saber. Esse pais e’ uma contradicao. Adultos mal saidos das fraldas, protegidos ate os 17 e jogados no mundo aos 18. Adultos que se ferem e se maltratam todos os dias. E nos apenas assistimos, porque eles sao responsaveis por si mesmos. Se os pais soubessem o que nos sabemos, coitados. Talvez seja melhor assim.

Enfim, segurancas, emergencia medica da universidade, ambulancia, hospital, o diabo a quatro. E ela repetia um mantra que era mais ou menos assim: “Meus pais vao me odiar, ninguem me ama mesmo, eu nao sou bonita, nao sou inteligente, nao tenho namorado nem amigos, me abraca que eu estou com frio”. Ela tem horror a medico, tem medo de quem usa jaleco branco, qualquer pessoa. Fiz o rapaz tirar o jaleco. E eu tive que ir na ambulancia, segurando a mao, dizendo que ela e’ amada sim, por muito mais gente do que ela pensa. Descobri, no hospital, que nao foi a primeira vez, e que a quantidade de alcool consumida foi absurda pra uma pessoa tao pequena e magrinha. Nao era hora pra sermoes, nem era o meu papel.

Do hospital pra minha casa, no telefone com a mae dela o tempo todo, dando conta de cada passo. Banho, cama, cafe da manha, colo, filme no dvd, soninho de novo, mais colo, jantar, carona de volta pra casa. Tivemos um fim de semana incrivel. E meu marido perguntou: quem sera que esta cuidando assim dos meus meninos na faculdade? Provavelmente, ninguem, meu amor. Eles sao adultos, nao sao? Que mundo filho da puta esse em que vivemos.

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O premiado chef Alex Atala, famosissimo no meu Brasil varonil, ensina a fazer uma moqueca baiana numa pagina qualquer do site da Globo. Eu, curiosa, fui ver como e’ que ele fazia moqueca, e encontrei isso:

– Quatrocentos gramas de badejo
– Cento e sessenta gramas de tomate sem pele e sem semente
– Quarenta gramas de pimentão vermelho (cortado em tiras)
– Quarenta gramas de pimentão amarelo (cortado em tiras)
– Quarenta gramas de pimentão verde (cortado em tiras)
– Oitenta gramas de cebola (cortado em tiras)
– Cento e cinquenta mililitros de caldo de peixe
– Cento e cinquenta mililitros de leite de coco reduzido
– Cinco gramas de alho
– Quarenta mililitros de azeite de dendê
– Dez gramas de coentro
– Dez mililitros de óleo de canola
– Sal e pimenta a gosto

Diante disso, eu lhe pergunto, minha amiga dona de casa: Voce cozinha assim? Uma  simples moqueca, um prato tradicional, cansado de rodar por ai em livrinhos de receitas manchados de dende? Quarenta gramas de pimentao vermelho? Dez mililitros de oleo de canola? Oh meu pai, porque tudo no Brasil tem que ser assim, para poucos, cheio de pompas e circunstancias?

Entao, as vezes a pessoa precisa fazer uns planinhos, ne? Dai que eu decidi fazer uma lista dos meus planos pro ano que vem, depois que acabar o mestrado. Nao e nada nao, e’ que da um certo conforto ficar ‘planejando um tempo tao desejado, um tempo que parece tao impossivel.

Mas a minha listinha nao havia de ser uma coisa seria, com compromisso de realizacao, e so uma listinha de coisas divertidas e boas de pensar, coisas que me fazem bem mesmo que nem acontecam. Ate porque se fosse um negocio muito serio entao nao seria eu a escrever aqui, ne? Vamos a lista:

1. Passar o ano inteiro comemorando meus quarenta anos, ate fazer 41. Dai eu volto pros 35 e de la ninguem me tira. E’ que eu quero comemorar 40, mas depois planejo mentir a idade. Eu mencionei que vai ser festao? A high society de Rochester vai falar da minha festa por semanas a fio.

2. Fazer um boob job. Oi, psiu! Voce que me conhece pessoalmente… nem venha me dizer que meus peitos sao de bom tamanho que tu nao conhece os meus problemas.

3. Fazer uma viagem-conceito. Me internar por uma semana numa escola de culinaria em algum lugar no mundo onde se coma muito bem e falar, cheirar, admirar, aprender, criar e ate plantar comida de tudo que e’ jeito possivel nessa vida. Ainda nao decidi se sera na Espanha ou na Toscana. Mas pode tambem ser no sul da Franca, mesmo a Franca sendo tao cliche. Marido nao vai que ele nao sabe nem cortar um tomate, ele vai aproveitar pra ir numa expedicao arqueologica. Se eu acreditasse em deus, pedia a ajuda dele agora, vixe…. deve ser um poeirao da peste.

4. Como o numero tres tava ficando grande demais, eu resolvi chamar de numero quatro. Depois de uma semana cozinhando eu quero passar uma semana bundeando em qualquer pais do universo que nao seja o Brasil nem os Estados Unidos, que os dois estao me dando enjoo ultimamente.

5. Contratar um personal trainner pra ajudar a perder os quilos ganhos, a superar os dias mal alimentados com a cara no computador, sem tempo de malhar ou de cuidar do corpo. Ah, se o Leandro Carvalho me desse bola, e se meu dinheiro desse pra sustentar ele, ne?

6. Comprar roupa na loja, experimentando. Como eu nao tenho tempo pra muita coisa, ultimamente eu compro roupa pela internet. Mas nao da pra comprar aquele vestido escandalo, sabe? Tem que experimentar.

7. Ir a todos os jantares, piqueniques, festas e bingos de empresa que me convidarem. Ou seja, voltar a ser arroz de festa…. adouro.

8.

9.

10.

Ainda tem muita coisa pra desejar, mas vou deixar por aqui que o dever me aguarda. E esse post ta com uma cara de menininha mimada escrevendo pra miguxas que deus e mais.

Em outro post o Max fez a seguinte pergunta:

“vc andou falando sobre feminismo, mulheres no corpo docente, preconceito. Em algum momento vc vai estudar os motivos que levam os EUA a serem praticamente o único país do mundo que já saiu da Idade do Bronze e que ainda não dá às mulheres algo básico como a licença maternidade?

Queria ver sua opinião sobre isso.”

E eu comecei a escrever uma resposta pra ele que, de tão grande, resolvi transfromar em post:

Meu mestrado é na area de Higher Education, e minha tese é sobre a pequena quantidade de mulheres no corpo docente nas areas de ciência e engenharia, em universidades de pesquisa nos EUA. Nela, eu exploro as razões pelas quais as mulheres, depois de vinte anos de crescente número em programas de doutorado, continuam sendo excluidas do circulo de professores universitarios, especialmente nos cargos mais altos. Eu passo muito de raspinha em direitos trabalhistas. O mundo acadêmico tem suas próprias razoes de ser e não obedece as normas do mercado de trabalho externo, portanto eu não estudo questões trabalhistas em geral.

Mas não é porque eu não estudo isso que eu nao tenho meus 2 centavos pra contribuir. Já pensei muito sobre essa questão e a minha conclusão vem de simples observação cultural e de conversas com outras mulheres. Eu penso que as mulheres americanas, como pioneiras em emancipação feminina, não desejam nenhuma forma de  tratamento especial por conta do seu sexo. As mulheres aqui parecem se orgulhar muito mais de terem voltado ao trabalho três dias depois do parto do que de terem tirado três meses de licença maternidade. Quando eu comento com alguém que no Brasil  eram quatro meses e agora é possivel tirar seis meses de licença, elas ficam maravilhadas, mas é muito como eu falei num outro post, sobre um assunto um tanto diferente: elas admiram, mas não parecem desejar.

O estigma de precisar de atenção especial ou de beneficios especificos é um fator que gera preconceito. No Brasil, muitas mulheres não são contratadas para determinados cargos se estiverem em idade reprodutiva, e isso é feito de uma maneira discreta ou não. Aqui nos EUA é proibido por lei perguntar na entrevista se a pessoa é casada ou se tem filhos. Portanto, eu penso que, em matéria de conquistas femininas, de luta contra o preconceito no local de trabalho, a licença maternidade pode representar um retrocesso pra muita gente aqui, porque pode gerar retaliações por parte do empregador.

Eu não me lembro de ter visto uma mulher grávida arrumar um emprego novo ou ser promovida no Brasil. Trabalhei numa organização onde se falava abertamente nas reuniões pra decidir contratação sobre: idade, sexo, estado civil, quantidade de filhos, possibilidade de ter filhos num futuro próximo e outros items cabeludos. Mas minha colega aqui nos EUA acaba de ser contratada pra um outro setor, numa posição acima da anterior, aos cinco meses de gravidez. Existe uma expectativa de que ela não vai sair de circulação por mais de dois meses. Um erro grave é que aqui, muitas vezes, a pessoa não tem opção nenhuma. Uma vez que o controle é transferido para as empresas,  isso significa que se a mulher desejar tirar um tempo de folga ela até pode mas, dependendo da empresa, vai ter que bancar do próprio bolso.

Quando eu penso em licença maternidade eu penso num direito legal de ter, uma opção fantástica pra quem realmente deseja isso. Mas, como um benefício praticamente compulsório eu não acho bom não. Seria legal se as pessoas pudessem tirar seis meses de licença entre o pai e a mãe. Daí cada casal que dividisse o tempo de forma conveniente pros dois, de acordo com a profissão de cada um. Não havendo casal, que a mulher pudesse tirar o tempo de folga como lhe fosse conveniente, nem sempre todo de uma vez.

Esse é um assunto muito sensível e, ainda que esse blog seja muito pouco popular, eu acredito que vai aparecer quem me acuse de ser contra a licença maternidade. Não sou contra a lei, mas sou contra a cobrança de que a mulher fique em casa e cuide do filho. E vamos lembrar que existem também pais solteiros. E vai ter quem me lembre que homem não amamenta, e eu vou dizer que tem muita mulher que também não o faz… ad infinitum.