…eu virava a noite na emergencia do hospital da universidade.

Sai de casa no meu melhor vestido, no salto mais alto, batom e perfume. Seria uma noite memoravel, como todo ano. Um delicioso jantar, bons vinhos e, ao final, os alunos do quarto ano montam um teatrinho pra tirar sarro com os professores e com a gente tambem. Depois disso, DJ e arrasta-pe ate tarde.

A diferenca e’ que, de todas as classes que eu vi formar, essa e’ especial. Todo mundo e’ muito unido, muito amigo, muito proximo. Sao tambem muito proximos de nos, e’ como se tivessemos varios filhos e irmaos se formando. Entao, esse ano seria um ano especial, emocionante ate. E foi. Terminou as 3 da manha. No hospital.

Ela chegou toda linda, toda orgulhosa do sapato estilo barbie, na cor pink, que compramos juntas na noite anterior. Esteve numa outra festinha antes, bebeu cerveja. E ela quase nao come, tem medo de engordar. Jantou na nossa mesa, ate comeu direitinho, mas o vinho descia com facilidade. Avisei: da um tempo. Mas, na hora do teatrinho, ela sumiu. Procurei, nao encontrei, so a bolsa e as chaves do carro. Ainda bem. Quando a musica comecou, procurei de novo. Encontrei-a jogada no sofa, apoiada por dois colegas. Estava irreparavelmente bebada, e eu fui extremamente dura com os meninos. O QUE FOI QUE ELA CONSUMIU??? QUEM DEU??? VOCE BEBEU COM ELA???? Nao, nao, nao. Coitados. Nao tinham feito nada com ela, encontraram-na ja naquele estado. Mas eu precisava coloca-los na parede e ver que tipo de resposta saia.

A partir dai o drama so aumentou. Os funcionarios do local do evento precisavam chamar a seguranca, era parte do trabalho deles. Eu precisava ligar pra mae dela, apesar da autoridade dos seus 21 anos. Eu moro aqui, mas nao acredito nessa merda dessa independencia tao cedo, a mae precisava saber. Esse pais e’ uma contradicao. Adultos mal saidos das fraldas, protegidos ate os 17 e jogados no mundo aos 18. Adultos que se ferem e se maltratam todos os dias. E nos apenas assistimos, porque eles sao responsaveis por si mesmos. Se os pais soubessem o que nos sabemos, coitados. Talvez seja melhor assim.

Enfim, segurancas, emergencia medica da universidade, ambulancia, hospital, o diabo a quatro. E ela repetia um mantra que era mais ou menos assim: “Meus pais vao me odiar, ninguem me ama mesmo, eu nao sou bonita, nao sou inteligente, nao tenho namorado nem amigos, me abraca que eu estou com frio”. Ela tem horror a medico, tem medo de quem usa jaleco branco, qualquer pessoa. Fiz o rapaz tirar o jaleco. E eu tive que ir na ambulancia, segurando a mao, dizendo que ela e’ amada sim, por muito mais gente do que ela pensa. Descobri, no hospital, que nao foi a primeira vez, e que a quantidade de alcool consumida foi absurda pra uma pessoa tao pequena e magrinha. Nao era hora pra sermoes, nem era o meu papel.

Do hospital pra minha casa, no telefone com a mae dela o tempo todo, dando conta de cada passo. Banho, cama, cafe da manha, colo, filme no dvd, soninho de novo, mais colo, jantar, carona de volta pra casa. Tivemos um fim de semana incrivel. E meu marido perguntou: quem sera que esta cuidando assim dos meus meninos na faculdade? Provavelmente, ninguem, meu amor. Eles sao adultos, nao sao? Que mundo filho da puta esse em que vivemos.