junho 2010


As pessoas julgam onde moro pela distancia de NYC – cinco horas de carro. Pro mundo inteiro, a unica coisa que importa no estado de NY e’ a cidade de NY em si. Ate’ mesmo os americanos nao reconhecem muita coisa alem disso. E as pessoas acabam achando que eu moro no fim do mundo.

Apesar do inverno terrivel que temos aqui, nao temos desastres naturais. Os furacoes chegam a nos em forma de chuva, ja diluidos no trajeto. A gente aprende a dirigir na neve como poucas pessoas nesse pais sabem, e a vida segue no inverno, sem maiores atribulacoes, porque estamos acostumados. Nao muito longe daqui, em DC, quando neva, a cidade para, porque eles nao tem o maquinario nem o know-how pra lidar com mais de 2 polegadas.

A selecao de restaurantes e’ memoravel, temos representacao de muitos paises, e varios restaurantes de boa culinaria, com chefs memoraveis. Os de alta culinaria nao sao muitos, mas sao o que a cidade comporta, e nos provem com uma variedade consideravel. Vale dizer que, em ocasioes especiais, eu, libriana, tenho dificuldades de escolher onde vou comer. E eu sou chata com comida, tenho paladar exigente e razoavelmente experiente.

Somos orgulhosos cidadaos de uma cidade que comporta a Eastman School of Music, uma das melhores escolas de musica do pais e que formou a talentosa Maria Schneider e outros musicos de carreira respeitavel. Vale dizer que esses musicos sao muito gratos a sua alma mater e voltam aqui frequentemente pra espetaculos maravilhosos a precos modicos. Como trabalho na universidade da qual a Eastman faz parte, tenho acesso a varios espetaculos em primeira mao, com ingressos reduzidos. No ano passado vi Yo-Yo Ma tocando com a Rochester Philharmonic sem pagar nada.

No verao, a cidade vibra, e e’ palco de um festival de jazz que esta crescendo rapidamente. O desse ano acabou ontem e o trafego de pessoas chegou a 162,000. Nao e um festival de trios e quartetos de jazz apenas, e um evento que abriga muitos tipos de musica que nem sempre estao sob a bandeira do jazz como estilo – nos fins de semana todo tipo de musica e’ bem vindo, pra poder atrair um maior numero de pessoas. Alguns shows que tive oportunidade de ver foram muito bons, como a banga hungara Djabe, a banda canadense Soul Stew e a cantora brasileira Joyce, que vi duas vezes. Meu marido, que e’ voluntario do festival, viu muitos shows e disse que a qualidade musical foi melhor do que anos passados. Shows de maior porte no Eastman Theater, sao tambem muito populares. Esse ano tivemos Herbie Hancock, Stanley Jordan, Bernie Williams e Jeff Beck, em outros anos pude ver Eliane Elias, Branford Marsalis, Wynton Marsalis e Madeleine Peyroux.

Os encantos de Rochester estao tambem concentrados em beleza natural. A cidade tem muito verde e muitos parques muito bem conservados. Estamos localizados muito perto dos Finger Lakes, uma regiao de lagos lindissima e muito apropriada para a producao de vinhos. Tambem estamos a 1 hora e meia de Niagara Falls e a poucas horas do grandeparque nacional Adirondaks, que atrai gente do pais inteiro na epoca do outono, estacao mais bonita dessa regiao.

Rochester e’ tambem uma cidade de grande diversidade cultural e racial. Coisa rara em cidades menores nos EUA, temos uma comunidade inter racial muito grande, nao e novidade sair na rua e ver familias de todas as cores. A universidade, com seu publico diverso, empresta um olhar multi-racial e multi-nacional a essa cidade pacata, o que no mid-west americano seria quase impossivel. Numa recente viagem a Portland, Oregon, eu fiquei impressionada de ver a unanimidade branca pelas ruas, bares e restaurantes. Ate mesmo na feira todo mundo era branco. Nao quero dizer que isso seja um problema, mas cada um vive onde se sente confortavel, e diversidade e’ uma coisa importante pra mim. O mercado publico de Rochester, a nossa feira de sabado, e’ uma festa de cores, culturas, culinarias e idiomas, coisa que me faz sentir bastante confortavel aqui.

Eu reclamo muito do frio, porque eu nao gosto de frio e pronto. Mas pra quem gosta tem muito o que fazer. Os amantes de ski e snow shoe nao ficam em casa, eu garanto, tem sempre algo pra explorar. Eu, no inverno, sou frequentadora assidua de restaurantes, pubs, cinemas e teatros. Confesso que preferiria morar num lugar onde nao fizesse tanto frio, mas essa e’ a cidade que eu tenho no momento. Essa e’ a cidade que eu aprendi a admirar, e dela tenho orgulho. Eu vou bastante a NY, mas vou mais a Toronto, a 3 horas daqui, e de uma civilidade incrivel. Adoro estar pertinho do Canada, e considero essa uma coisa importantissima no inverno, porque passar frio em Toronto e Montreal e’ muito mais gostoso, ne?

Fotos: Downtown Rochester, flores no Highland Park, Genesee Park arvore no outono, a caminho do trabalho tirada no outono, meu condominio.

Antes que voce me pergunte onde eu vejo essas coisas, eu vou logo confessando que leio o site da Globo sempre que estou estudanto. Funciona como um momento de relaxamento mental. Dai que hoje vi uma menina que participou de algum BBB, nao sei qual, e acaba de colocar silicone nos peitos. Pra justificar a decisao, ela disse varias coisas, mas essa aqui me derrubou:

“…é difícil uma mulher de pouco peito ser aceita na sociedade.”

E eu so posso achar que deve ser verdade, ne? Quem sou eu pra duvidar? O unico detalhe aqui e que eu nao conheco a sociedade dela. Na minha sociedade a pessoa tem que fazer outras maluquices pra ser aceita, mas botar peito ainda nao. E’ uma pena, pois eu teria sido aceita com honrarias, desde novinha.

Eu nao sou fa de auto-ajuda, muito menos de frases de efeito, voces sabem. Detesto. Mas hoje, depois da segunda porrada em menos de um mes – elas vem em tres, to esperando a ultima – eu conclui que:

Quando a gente espera que algo bom aconteca, quando a gente quer muito alguma coisa, mas o que acaba vindo e’ desapontamento, decepcao, a melhor coisa e’ se estar com os pes bem firmes no chao. Dessa forma, o desapontamento nos serve como um empurrao pra frente, um incentivo a continuar. Porque o tranco, voces sabem, vem sempre pelas costas. De modos que, com os pes plantados, da pra sair correndo. Agora, se o cabra ta com a cabeca cheia de minhoca, trabalhando no plano da fantasia, ai a queda e’ feia. Porque empurrao inesperando quando a gente ta com cara de besta olhando pras nuvens e’ queda na certa, ou nao e’?

Entao, vamos parar de lamento, meu povo, que eu nao sou mulher de cair, nao. Eu tropeco, cato nica, quebro a sandalia, mas eu nao bato essas cadeiras no chao de jeito nenhum. E depois, vamos combinar, nao tem como a gente perder uma coisa que nao tinha, ne? Eu simplesmente nao ganhei. Ponto final.

Bola pra frente que a copa do mundo e’ nossa. Oh e’poca boa pra chorar miseria, diz ai? Cerveja na mao, gol bonito na rede…bah! nao tem dor de cotovelo que resista, a emocao do gol e’ muito maior.

que o mundo era liquido, que eu flutuava lindamente num tapete azul, que as coisas todas eram azul piscina, o mesmo azul piscina da minha infancia.

depois sonhei que acordava com o calor da sua mao alisando minha barriga, que voce dizia “acorda, princesa” e me virava delicadamente pra massagear minhas costas.

acordei e vi que quase tudo era verdade.

Imagem daqui.