As pessoas julgam onde moro pela distancia de NYC – cinco horas de carro. Pro mundo inteiro, a unica coisa que importa no estado de NY e’ a cidade de NY em si. Ate’ mesmo os americanos nao reconhecem muita coisa alem disso. E as pessoas acabam achando que eu moro no fim do mundo.

Apesar do inverno terrivel que temos aqui, nao temos desastres naturais. Os furacoes chegam a nos em forma de chuva, ja diluidos no trajeto. A gente aprende a dirigir na neve como poucas pessoas nesse pais sabem, e a vida segue no inverno, sem maiores atribulacoes, porque estamos acostumados. Nao muito longe daqui, em DC, quando neva, a cidade para, porque eles nao tem o maquinario nem o know-how pra lidar com mais de 2 polegadas.

A selecao de restaurantes e’ memoravel, temos representacao de muitos paises, e varios restaurantes de boa culinaria, com chefs memoraveis. Os de alta culinaria nao sao muitos, mas sao o que a cidade comporta, e nos provem com uma variedade consideravel. Vale dizer que, em ocasioes especiais, eu, libriana, tenho dificuldades de escolher onde vou comer. E eu sou chata com comida, tenho paladar exigente e razoavelmente experiente.

Somos orgulhosos cidadaos de uma cidade que comporta a Eastman School of Music, uma das melhores escolas de musica do pais e que formou a talentosa Maria Schneider e outros musicos de carreira respeitavel. Vale dizer que esses musicos sao muito gratos a sua alma mater e voltam aqui frequentemente pra espetaculos maravilhosos a precos modicos. Como trabalho na universidade da qual a Eastman faz parte, tenho acesso a varios espetaculos em primeira mao, com ingressos reduzidos. No ano passado vi Yo-Yo Ma tocando com a Rochester Philharmonic sem pagar nada.

No verao, a cidade vibra, e e’ palco de um festival de jazz que esta crescendo rapidamente. O desse ano acabou ontem e o trafego de pessoas chegou a 162,000. Nao e um festival de trios e quartetos de jazz apenas, e um evento que abriga muitos tipos de musica que nem sempre estao sob a bandeira do jazz como estilo – nos fins de semana todo tipo de musica e’ bem vindo, pra poder atrair um maior numero de pessoas. Alguns shows que tive oportunidade de ver foram muito bons, como a banga hungara Djabe, a banda canadense Soul Stew e a cantora brasileira Joyce, que vi duas vezes. Meu marido, que e’ voluntario do festival, viu muitos shows e disse que a qualidade musical foi melhor do que anos passados. Shows de maior porte no Eastman Theater, sao tambem muito populares. Esse ano tivemos Herbie Hancock, Stanley Jordan, Bernie Williams e Jeff Beck, em outros anos pude ver Eliane Elias, Branford Marsalis, Wynton Marsalis e Madeleine Peyroux.

Os encantos de Rochester estao tambem concentrados em beleza natural. A cidade tem muito verde e muitos parques muito bem conservados. Estamos localizados muito perto dos Finger Lakes, uma regiao de lagos lindissima e muito apropriada para a producao de vinhos. Tambem estamos a 1 hora e meia de Niagara Falls e a poucas horas do grandeparque nacional Adirondaks, que atrai gente do pais inteiro na epoca do outono, estacao mais bonita dessa regiao.

Rochester e’ tambem uma cidade de grande diversidade cultural e racial. Coisa rara em cidades menores nos EUA, temos uma comunidade inter racial muito grande, nao e novidade sair na rua e ver familias de todas as cores. A universidade, com seu publico diverso, empresta um olhar multi-racial e multi-nacional a essa cidade pacata, o que no mid-west americano seria quase impossivel. Numa recente viagem a Portland, Oregon, eu fiquei impressionada de ver a unanimidade branca pelas ruas, bares e restaurantes. Ate mesmo na feira todo mundo era branco. Nao quero dizer que isso seja um problema, mas cada um vive onde se sente confortavel, e diversidade e’ uma coisa importante pra mim. O mercado publico de Rochester, a nossa feira de sabado, e’ uma festa de cores, culturas, culinarias e idiomas, coisa que me faz sentir bastante confortavel aqui.

Eu reclamo muito do frio, porque eu nao gosto de frio e pronto. Mas pra quem gosta tem muito o que fazer. Os amantes de ski e snow shoe nao ficam em casa, eu garanto, tem sempre algo pra explorar. Eu, no inverno, sou frequentadora assidua de restaurantes, pubs, cinemas e teatros. Confesso que preferiria morar num lugar onde nao fizesse tanto frio, mas essa e’ a cidade que eu tenho no momento. Essa e’ a cidade que eu aprendi a admirar, e dela tenho orgulho. Eu vou bastante a NY, mas vou mais a Toronto, a 3 horas daqui, e de uma civilidade incrivel. Adoro estar pertinho do Canada, e considero essa uma coisa importantissima no inverno, porque passar frio em Toronto e Montreal e’ muito mais gostoso, ne?

Fotos: Downtown Rochester, flores no Highland Park, Genesee Park arvore no outono, a caminho do trabalho tirada no outono, meu condominio.