outubro 2010


A minha vida é bem marcada por décadas certinhas. A cada dez anos alguma coisa bem importante e interessante me acontece:

  • Aos dez anos eu menstruei e dei o primeiro selinho num menino. Sim, eu sempre fui um pouco precoce.
  • Aos vinte algo muito interessante aconteceu, acredite. Mas eu não estou a fim de contar. E não fique aí pensando que é um segredo cabeludo. Não é.
  • Aos trinta eu me casei, mudei de país, pintei o diabo.
  • Aos quarenta anos e quinze dias nada aconteceu ainda, nenhuma promessa de mudança.

Estou pronta, esperando. Mas estou ficando impaciente. Vamos, manda a bola que eu chuto pro gol. Já está mais do que na hora.

 

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O chao tremeu no suburbio americano, os vizinhos devem estar de cabelo em pe. O arrasta-pe so acabou as tres da manha e eu esqueci de fechar as janelas pra diminuir o barulho la fora. Paciencia, nao e todo dia nao. Daqui a pouco voltamos a vidinha mais ou menos que nao incomoda ninguem.

Esse ano eu decidi que comemoraria meu aniversario com tudo que tivesse direito.  Foram oito horas de festa, do primeiro ao ultimo convidado, muita champagne, e comida mais ou menos. Bom, todo mundo pareceu gostar da comida, menos eu. Pelo que paguei esperava mais, ou teria feito melhor e por muito menos. Mas valeu a pena nao ter feito nada pra me estressar.

Todo mundo veio, ate quem nao vinha resolveu de ultima hora. Dancamos, cantamos, teve cupcake de chocolate com raspberry, bombom de chocolate com uisque e muitas risadas. Great times!

E o que foi entao tudo isso ate aqui? Ensaio? Mas sempre ouvi dizer que nao ha ensaio pra vida, que ela e’ muito mais uma peça de um ato so. Drama, comedia, romance, tragedia, todos contidos num so ato.

Eu nem ia dizer nada sobre esse assunto porque e’ muito, muito triste. Mas hoje eu estou sensivel e resolvi comentar.

O suicidio nao e’ novidade em escolas e universidades. Ser adolescente nao e’ bolinho nao, e ha quem simplesmente nao segure a onda e deixe a vida prematuramente. E’ triste, muito triste, sempre foi. Mas o que torna o suicidio juvenil uma coisa muito mais horrenda nesse mundinho sujo, que chamamos de moderno, e’ que hoje e’ infinitamente mais facil violar um ser humano publicamente, a nivel nacional, as vezes mundial. A coisa tem ate nome: cyber-bullying.

Tyler Clementi foi vitima de tal abuso. Ele, aluno de primeiro ano da Rutgers University, acordou um belo dia e viu sua vida escancarada no Youtube de forma tao tenebrosa que julgou impossivel continuar a viver. O colega de quarto, junto com uma amiga, havia postado na Web imagens de Tyler se relacionando sexualmente com outro garoto. Antes de tirar a propria vida, Tyler anunciou no Facebook que o faria.

Puta que pariu! Se ja e’ dificil ser iniciante nesse mundo em condicoes favoraveis, imagine sendo exposto de forma tao absurda.

Longe de mim passar licao de moral pra ninguem aqui. Educar uma pessoa e’ tarefa das mais importantes, e eu me considero despreparada para tal. Mas eu preciso dizer pra voces como eu cheguei aqui sem maiores arranhoes morais: Eu jantava com meus pais toda noite, sem falta. Meu pai nao gostava de distracoes na hora do jantar, nada de cantar, assoviar, ou atender ao telefone. E era nessa hora que a gente conversava. Quer dizer, eles conversavam, eu era pre-adolescente. Foi nessas conversas entre eles que eu aprendi quais eram os valores pregados na minha casa. Eu estava la, estava ouvindo enquanto eles discutiam as noticias do dia, suas opinioes e (pre)conceitos. Ainda tenho lembrancas claras de determinadas conversas, e das licoes tiradas dali. E’ dai que vem os meus valores, essa coisa de respeitar o ser humano, essa bobajada toda.

E’ possivel que as escolhas que nos fazemos hoje estejam muito equivocadas, essa mania de querer ser tudo ao mesmo tempo: mae, pai, profissional respeitado, estudante aplicado, yogi, chef, o caralho. Na pratica, nao temos tempo pra tudo isso, e alguma coisa sofre no processo. E’ uma pena muito grande quando o que sofre e’ a educacao dos jovens. Pais e maes ausentes nao educam, nesse caso quem educa e’ a rua, e’ preciso atencao e tempo pra formar um ser humano que seja realmente humano.

A tragedia que se abateu sobre essas familias e’ horrenda. Meu carinho vai pra familia de Tyler. Nada nunca vai justificar essa ausencia. Mas eu tambem tenho muita pena das familias dos infratores, provavelmente nao sabiam que estavam criando monstrinhos sem coracao, seres nao-humanos. O mundo e’ um lugar escuro e frio, e as vezes fede.

A Ellen Degeneres fez um depoimento emocionado sobre a tragedia, e revelou que somente no mes que passou 4 adolescentes cometeram suicidio por causa de cyber-bullying. Veja o video em ingles aqui.