O chao tremeu no suburbio americano, os vizinhos devem estar de cabelo em pe. O arrasta-pe so acabou as tres da manha e eu esqueci de fechar as janelas pra diminuir o barulho la fora. Paciencia, nao e todo dia nao. Daqui a pouco voltamos a vidinha mais ou menos que nao incomoda ninguem.

Esse ano eu decidi que comemoraria meu aniversario com tudo que tivesse direito.  Foram oito horas de festa, do primeiro ao ultimo convidado, muita champagne, e comida mais ou menos. Bom, todo mundo pareceu gostar da comida, menos eu. Pelo que paguei esperava mais, ou teria feito melhor e por muito menos. Mas valeu a pena nao ter feito nada pra me estressar.

Todo mundo veio, ate quem nao vinha resolveu de ultima hora. Dancamos, cantamos, teve cupcake de chocolate com raspberry, bombom de chocolate com uisque e muitas risadas. Great times!

E o que foi entao tudo isso ate aqui? Ensaio? Mas sempre ouvi dizer que nao ha ensaio pra vida, que ela e’ muito mais uma peça de um ato so. Drama, comedia, romance, tragedia, todos contidos num so ato.

Eu nem ia dizer nada sobre esse assunto porque e’ muito, muito triste. Mas hoje eu estou sensivel e resolvi comentar.

O suicidio nao e’ novidade em escolas e universidades. Ser adolescente nao e’ bolinho nao, e ha quem simplesmente nao segure a onda e deixe a vida prematuramente. E’ triste, muito triste, sempre foi. Mas o que torna o suicidio juvenil uma coisa muito mais horrenda nesse mundinho sujo, que chamamos de moderno, e’ que hoje e’ infinitamente mais facil violar um ser humano publicamente, a nivel nacional, as vezes mundial. A coisa tem ate nome: cyber-bullying.

Tyler Clementi foi vitima de tal abuso. Ele, aluno de primeiro ano da Rutgers University, acordou um belo dia e viu sua vida escancarada no Youtube de forma tao tenebrosa que julgou impossivel continuar a viver. O colega de quarto, junto com uma amiga, havia postado na Web imagens de Tyler se relacionando sexualmente com outro garoto. Antes de tirar a propria vida, Tyler anunciou no Facebook que o faria.

Puta que pariu! Se ja e’ dificil ser iniciante nesse mundo em condicoes favoraveis, imagine sendo exposto de forma tao absurda.

Longe de mim passar licao de moral pra ninguem aqui. Educar uma pessoa e’ tarefa das mais importantes, e eu me considero despreparada para tal. Mas eu preciso dizer pra voces como eu cheguei aqui sem maiores arranhoes morais: Eu jantava com meus pais toda noite, sem falta. Meu pai nao gostava de distracoes na hora do jantar, nada de cantar, assoviar, ou atender ao telefone. E era nessa hora que a gente conversava. Quer dizer, eles conversavam, eu era pre-adolescente. Foi nessas conversas entre eles que eu aprendi quais eram os valores pregados na minha casa. Eu estava la, estava ouvindo enquanto eles discutiam as noticias do dia, suas opinioes e (pre)conceitos. Ainda tenho lembrancas claras de determinadas conversas, e das licoes tiradas dali. E’ dai que vem os meus valores, essa coisa de respeitar o ser humano, essa bobajada toda.

E’ possivel que as escolhas que nos fazemos hoje estejam muito equivocadas, essa mania de querer ser tudo ao mesmo tempo: mae, pai, profissional respeitado, estudante aplicado, yogi, chef, o caralho. Na pratica, nao temos tempo pra tudo isso, e alguma coisa sofre no processo. E’ uma pena muito grande quando o que sofre e’ a educacao dos jovens. Pais e maes ausentes nao educam, nesse caso quem educa e’ a rua, e’ preciso atencao e tempo pra formar um ser humano que seja realmente humano.

A tragedia que se abateu sobre essas familias e’ horrenda. Meu carinho vai pra familia de Tyler. Nada nunca vai justificar essa ausencia. Mas eu tambem tenho muita pena das familias dos infratores, provavelmente nao sabiam que estavam criando monstrinhos sem coracao, seres nao-humanos. O mundo e’ um lugar escuro e frio, e as vezes fede.

A Ellen Degeneres fez um depoimento emocionado sobre a tragedia, e revelou que somente no mes que passou 4 adolescentes cometeram suicidio por causa de cyber-bullying. Veja o video em ingles aqui.

A vida com ela é doce, alegre, animada. O nível de excitação que habita a minha casa é incrível. As risadas largas, barulhentas, a voz aguda que dói nos ouvidos. Tudo, tudo que é novo merece celebração. Toda noite, antes de fazer qualquer coisa, tenho que ouvir o animado relato do dia, com direito a atuação e tudo.

No último fim de semana ela passou o tempo todo dizendo “I have friends!” num tom de voz estridente que só meninas adolescentes conseguem alcançar. Durante a semana ela estabeleceu, na escola, que tinha amigas. No sábado foi ao shopping com Daniela, uma garota mexicana que está fazendo intercambio. As duas falam uma mistura de espanhol com inglês. E ela começou a entender que pode sim aprender as duas linguas ao mesmo tempo.

Sissi, a amiga chinesa, acabou de chegar e ainda esta muito abalada com a falta dos pais. Ela me conta que quando Sissi está muito triste ela a consola, dizendo que elas têm uma a outra. E’ tão lindo ver minha pequena amadurecendo, entendendo que a gente aprende na adversidade, e que as pessoas que a gente encontra nessa vida são o maior tesouro que guardamos. Eu disse que ela provavelmente nunca esqueceria essas duas meninas, mesmo que nunca mais se vejam ou se falem. Ela concordou dizendo que está feliz porque as três se encontraram.

Semana passada eu tranquei uma das matérias do mestrado, ao invés de ir à aula toda segunda feira irei trabalhar em casa, num projeto independente. Ela achou ruim, disse que não queria interferir na minha data de formatura. Expliquei que pra mim era muito mais importante estar em casa, ainda que esteja trancada no escritório estudando. Ainda vou me formar no fim do ano, isso não vai me atrasar. Mas quero estar lá quando ela quiser me contar o que aconteceu na escola. E depois, a matéria não era assim tão importante.

Pras pessoas que me disseram que eu era louca, que depois dos enteados criados eu estava procurando “problemas”, eu respondo: eu nunca morei com minha irmã, na mesma casa nem na mesma cidade, eu não sabia ao certo como seria o dia-a-dia com ela, mas eu sabia que seria bom. Eu estava pronta pra vinda dela, ela estava pronta pra vir. E quando as pessoas se encontram na hora certa e’ tudo muito mais divertido. Nunca achei que seria fácil, mas achei que seria bom, apesar de dificil. E é exatamente o que está acontecendo.

Logo de manha…

Maninha: Todo mundo me olha na escola, principalmente na aula de ginastica, quando estamos todas de shorts.

Eu: Porque voce acha que isso acontece, especialmente na aula de ginastica? Eu nao acho que voce e’ tao diferente assim. (em tom de brincadeira) Sera que eles acham a sua pele escura uma coisa atraente?

Maninha: Nao, tem outras meninas morenas na aula, apesar da maioria ser branca de olhos claros. Tem uma que e’ morena de cabelo ruim.

Eu: (olhos esbugalhados ja pensando no que vem depois) E o que vem a ser uma pessoa morena de cabelo ruim? Voce quer dizer que a menina e’ negra?

Maninha: Ah, no Brasil a gente nao se refere a pessoa como negra nao, pode ofender.

Eu: (absolutamente paralisada) Mas voce acha que e’ ofensivo porque uma pessoa negra lhe disse isso?

Maninha: Nao, mas la todo mundo sabe disso.

Eu: (cara de bunda, sem saber o que dizer).

Help! Panico!

Update: Vale ressaltar que minha irma e’ uma “morena do cabelo ruim”, e e’ ai que mora meu maior desafio. Como, meu povo, como fazer essa menina se olhar no espelho e se enxergar verdadeiramente?

Minha mae faz 60 anos na sexta feira e eu nao vou estar la. Nem posso ir na semana que vem, nem no mes que vem. Nem dia nenhum esse ano.
E’ foda nao poder comemorar o aniversario da mae junto com ela, especialmente em se tratando de uma filha unica. Nao posso ir em parte porque a pequena esta aqui, em parte porque tenho aulas e compromissos academicos. Mas a razao nao importa. Mesmo justificado e’ foda. Ja chorei hoje.
Morar longe e’ pra quem tem coragem, meu povo. Pra quem tem coragem. Nao poder pegar um aviao e passar um misero diazinho com ela e’ do cacete. Vai matar o diabo.

*Nao se esqueca de adicionar a cedilha no c do titulo, pelamor. Nao to aqui pra ser enforcada nao.

Sao mais de 8 da noite e eu me sento agora pra fazer meu primeiro homework do semestre: um paper de 5 paginas. So isso. Como o desgracado do professor passa um negocio desses na primeira semana com um feriado no meio e ainda consegue dormir em paz, eu nao sei.

Estou exausta. E o punk da vida nem comecou ainda.

Chegamos de NY ontem, nos divertimos horrores. Compramos horrores. Mas minha pequena nao vai pra escola amanha, como todo mundo, porque a burocracia americana e’ muito mais poderosa do que a brasileira. Nao quero nem explicar agora porque a raiva e’ muita.

Comeco hoje uma rotina que muitas mulheres enfrentam todo dia: trabalho, escola e familia. A pior parte e’ a adolescente mais fofa do mundo pedindo pra fazer algo como jogar volei no quintal ou andar de bicicleta e ouvir minha voz vascilante dizer que nao posso porque tenho homework. Mal posso esperar que ela va pra escola e faca amigos. E que tambem tenha homework. Ta ai uma coisa que podemos fazer juntas, vai ser muito legal.

A conclusao espetacular de hoje e’ que sono e’ um artigo de luxo na vida das mulheres com jornada tripla como eu. Cafeina, aqui vamos nos rumo a um semestre de notas baixas, trabalho mal feito, comida rapida e casa suja. Ouvi dizer que tem muita mulher com filho mal criado tambem, mas nao vamos discutir assuntos que nao dominamos.

Hoje trabalhei umas 4 horas, foi o que consegui. E quando o aluno entrou na minha sala me dizendo que nao tinha encontrado tal materia e que precisava do numero, eu tive vontade de dizer: minha irma vai perder o primeiro dia de escola, eu to me sentindo culpada, minha casa ta suja, meu celular ta quebrado, meu carro precisa de troca de oleo desde o mes passado, a mala da viagem esta jogada no meio da sala, eu nao sei o que vou fazer pro jantar hoje, e voce vem me dizer que nao encontrou o curso? Vai procurar um macaco pra pentear e me deixa em paz, faz favor.

Bom, vamos parar de conversinha porque as cinco paginas ainda me esperam. Vou escrever duas hoje e tres amanha. Quero crer que a escola vai resolver meus problemas e que maninha estara la firme e forte na quinta. E vai chegar tao cansada que nao vai me perguntar, com sua vozinha animada: o que vamos fazer hoje?????

Me desejem sorte, fantasminhas. E forca. Com cedilha.