setembro 2009


A aluninha de mestrado, inteligente pra burro, disse assim:

– Professor, mas o cenário da educação nos Estadunidos vai mudar, porque a atual economia vai fazer com que a quantidade de alunos diminua. Mas, veja bem, daqui a cinco anos (exatamente cinco), quando os alunos voltarem às universidades, será um publico diferente, bem minoria, bem afro-americano, bem latino.

E o vizinho de cadeira dela arrematou lindamente:

– E é justamente por isso que nós (tira meu nome da lista, capiau), estamos discutindo a necessidade da ação afirmativa nos dias de hoje. Brevemente, as minorias não serão mais minorias, e o branco não sera mais maioria.

Eu olhei ao redor e contei: 1 latina, 1 preto (em português a gente pode, né? ou não pode mais?), 1 chinesa e 16 brancos, incluindo o professor, que nada disse numa hora dessas. Eu não sei onde é que os mano ali do canto vivem, mas certamente não é no mesmo país que eu.

Deixa quieto que tá no fim da aula e eu tenho peixe maior pra matar em casa. Deixa o pessoal ir pra casa ouvindo Rush Limbaugh no radio do carro, que deve ser onde eles aprendem essas coisas fantásticas.

Explico: Sim, a população latina nos Estados Unidos está aumentando muito, mas está longe de ser maioria nas escolas particulares que eu e esses fofos frequentam. Cinco anos é muito pouco tempo pra que essa mudança tão radical aconteça. Eu não sei bem o que esse pessoal entende como universidade, certamente não são os centros de produção de diploma em massa onde os latinos e os negros se encontram.

Os professores das universidades americanas são brancos, os alunos são brancos, os profissionais de alto nível, os que trabalham perto do presidente e que realmente tomam as decisões são brancos. E homens.

A presença do jovem negro na cadeia, essa sim, ainda é altíssima. A quantidade de negros que ingressam na universidade pode até ser significativa, mas os números enganam os menos interessados em olhar mais adiante. Os negros também tem um alto índice de desistência. Isso acontece porque os programas sociais são muito bons, criam oportunidades para o adolescente de cor, pobre, ir pra universidade. Mas as escolas de segundo grau do bairro onde ele mora são péssimas, o cara não aguenta dois anos. E quem há de dizer que ele se sente à vontade com aquela gente branca, de classe média-alta, que não sabe da vida dele sequer o começo?

O número de negros em escolas pra negros, segregados, ainda é muito alto. O número de brancos em escolas pra negros, muito baixo. E eu não estou dizendo que as universidades negras (HBCUs) não são boas, elas têm um papel essencial na história desse país. Mas é segregação, ou não é?

Quando você ouve alguém insinuar que a ação afirmativa não é mais necessária, pode apostar, é um branco falando. Eu nunca vi um negro se dar por satisfeito, se achar bem representado, e dizer que a ação pode sair de cena. Nem depois de Obama.

Outro dia, na aula de outra matéria, alguém disse que a informação está aí pra todos, que o papel do professor de segundo grau é dar o conteúdo em classe e informar os alunos sobre as oportunidades. Ela ignorou completamente os professores que colocam os alunos pra baixo. Os que aconselham os alunos de cor a pegar matérias mais fáceis, que não ajudam em nada no acesso à universidade. Há ainda os que aconselham os alunos de cor a pegar matérias profissionalizantes, que aumentam a possibilidade de encontrar um emprego, pro caso de precisar. Isso tudo, aliado ao fato de que o ambiente em casa não deve ser lá muito propício, torna as coisas muito difíceis pra esses adolescentes.

Por essas e outras coisas, nos Estados Unidos que eu conheço, não acredito que  os negros e latinos serão maioria na universidade não, viu? Não em cinco anos. Ainda precisamos muito da ação afirmativa como movimento de mobilidade social.

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Hoje é aniversario do meu pai.

Liguei de manhã, ele tinha saído muito cedo, tinha ido pra uma área rural, celular fora de área. Empregada nova, pergunta quem é. E’ a filha dele. Ela respondeu: “aaahhh”.

Não esquece de dar o recado, não sei a que horas poderei ligar de novo. Por favor, não esquece. A empregada antiga me conhecia, pra ela eu tinha nome. Mas, ao falar com alguém estranho, volto aos dez anos de idade, quando eu era “a filha dele” e, tanto pra mim quanto pra ele, a identificação bastava.

Pobre da menina, nem me apresentei. Nem falei oi, nem fui simpática. Tomou conta de mim a arrogância que tinha na infância e na adolescência. Arrogância só compreensível numa filha única. Arrogância só exercida em relação ao pai, nunca em relação à mãe. Esqueci que há muito eu não sou “a filha dele”, que há muito fui ganhando irmãos e perdendo a importância. Todos eles, do jeito deles, mais presentes que eu. Será que ele falou de mim pra nova empregada?

Já não sou mais “a filha dele”. Nem sei se ele se importou de eu só ter ligado outra vez às dez da noite, quando cheguei da aula. Não sei se se importou de eu ter falado com ele por apenas dois minutos, a pausa que meu marido me deu na ligação de trabalho que tinha com a China. Não sei se ele lembra de mim, se pensa em mim quando coloca a cabeça no travesseiro. Se sabe de mim, da minha vida, do que eu faço. Mas não importa, foi aniversário dele e nós nos falamos por dois minutos. Fiz o que de mim era esperado. Liguei. Sou eu, pai, a filha que você vê uma vez ao ano, a primeira, a eterna filha única. Lembra de mim?

Feliz aniversário, pai.

Passei o fim de semana prolongado sentindo saudades. Cada hora era saudade de uma coisa ou pessoa diferente, mas todas elas situadas na Bahia.

Ontem cismei que o céu azul que tomava conta de Rochester parecia com o céu de Outono de Salvador. Era um azul de fim de tarde, um azul de Solar do Unhão, com um toque de Porto da Barra. A temperatura, quente mas agradável, era igualzinha a de lá nessa epoca. Ken não concordou. Claro que não. Não mora no coração dele a dor quietinha que mora no meu, a dor que de vez em quando desperta e vem me fazer triste. Nessas horas, tudo faz lembrar o lugar de onde vim.

Hoje acordei ainda mais triste e liguei pra algumas pessoas que me são caras, não encontrei ninguém em casa. Era feriado tanto aqui quanto lá. Não adiantava falar com a mãe, não era saudade de mãe. Era saudade  dos meus amigos, de mim mesma, de ser como era antes. Saudades de ser uma pessoa que já nem sou mais.

Mais pro fim da tarde abri pela primeira vez o livro de Sophia de Mello Breyner Andersen, a coisa mais linda e significativa que comprei em Portugal. Chama-se “Dia do Mar”. Nada por acaso, bem na página que abri, estava lá, a  minha poesia favorita em toda a obra de Sophia:

“Mar sonoro, mas sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só pra mim.”

Percebi então que tinha saudades era do mar, e chorei. Chorei a minha dor inteirinha e, com os olhos inchados, fui estudar. Como diz  a minha vozinha: o que não tem remédio, remediado está.