Ontem à noite teve discurso do presidente sobre as atuais guerras. Ele anunciou como e quando pretende acabar com as guerras do Iraque e do Afeganistão, coisas de extrema importância para a população Americana. Mas veja você no que o cidadão se apega.

Hoje de manhã… Todo mundo no escritório, primeiro café do dia fumegando na xícara, papo rolando, botando as notícias em dia, acontece o seguinte diálogo:

J.M.: Você viu o discurso do Obama ontem à noite?

Eu: Vi sim, claro. E aí, o que você achou? (eu sei que ela é muito a favor da guerra)

J.M.: Menina, os lábios do cara são azuis! Que absurdo! Será que é porque ele perdeu muito peso? Tá parecendo que tá doente.

Eu: ????? Como assim doente, menina? O cara é negro, os labios são pretos. O que tem isso a ver com peso?

J.M.: Pretos não, azuis. Um negócio esquisito!

C.P.: Eu tambem achei, que agonia ficar olhando pra ele. Será que nao dava pra botar um batomzinho nele não?

Eu: ?????? (com cara de quem tomou uma pedrada)

C.P.: O quê? Você não sabe que todos eles usam maquiagem não?

Eu: Sei, sim. Claro que sei. Sei também que você quer o lábio do cara com batom que é pra você ver menos preto na cara dele, né? Porque preto daquele jeito incomoda. Um batomzinho rosa, será? Rosa bebê? Ou um mais escuro?

E é nessas horas que eu agradeço ser uma pessoa que fala outra língua. Porque sai um ‘vai tomar no cu’ bem discreto, em português, e ninguem sabe que porra eu estou falando. Porque eu não tenho educação nenhuma, mas tenho que manter as aparências no trabalho.

Minha nossa! Onde é que eu vim me meter, que diabos de fim de mundo do cacete é esse? Me dê um tiro na cabeça. BATOM na boca de Obama!!! Caralho!

E eis que, a primeiro de Dezembro de dois mil e nove, ela, a merda branca, finalmente chegou. Você até pode achar que eu sou louca, que a coisa branca é linda, o que automaticamente lhe rende um convite a passar um mês de inverno, só um, na minha cidade. Mas não vale Dezembro, tem que ser Janeiro ou Fevereiro. Daí você, caro leitor silencioso, irá entender a minha eterna briga com ela.

Fotos tiradas por A.C. hoje pela manhã, no caminho pro trabalho, no parque vizinho ao campus.

A prova era de Etica. Quase na hora, os alunos todos sentados, alguem entra pra dar um aviso: o professor manda avisar que a prova mudou, sera no predio tal, sala tal. Do outro lado do campus.

Confusao geral, todo mundo sai correndo, com medo de chegar atrasado. O professor e’ exigente com horario.

No caminho, uma menina escorregou e caiu, parece que machucou a perna. Ninguem parou. Um rapaz tenta descer escadas usando muletas. Ninguem ajudou. Todos muito apressados. Na frente da biblioteca, um predio bem antigo, uma mae tenta abrir a pesada porta com seu filhinho no canguru. Ninguem nem reparou.

Chegaram todos ofegantes ao destino, ninguem se atrasou. O professor diz que infelizmente ja tem o resultado dos testes. Todos tiraram zero. O teste estava no caminho, mas ninguem reparou.

A pessoa que faz o que e’ certo, faz mesmo quando ninguem esta olhando. Mesmo quando algo parece ser mais importante.

(Diz a lenda que esse teste aconteceu no campus onde eu trabalho. Mas pode ter acontecido em qualquer campus, ou pode ser apenas uma anedota. E’ parte do folclore da minha universidade.)

Eu divido um grande escritório com uma colega, tem bastante espaço. Eu trabalho com os alunos de mestrado e PhD e ela com os alunos de graduação. Nós duas mantemos uma open door policy que, em português, significa que os alunos sabem que podem entrar no nosso escritório quando quiserem, que podem permanecer aqui o quanto quiserem e que podem falar sobre qualquer assunto.

Limites? Claro. Quando estamos muito ocupadas ou com prazos apertados, somos sempre sinceras. E eles saem ou ficam ali, quietinhos, sem atrapalhar. Muitas vezes saem e voltam com um café, um pedaço de bolo, um agradinho qualquer pra melhorar nosso dia. E’ essa parte do trabalho que faz valer a pena todo dia, o carinho dos alunos. Numa sociedade como essa, que manda os meninos pra faculdade, distante de casa, aos 18 anos, é natural que eles procurem um lugar onde se sintam seguros, procurem pessoas que possam servir de exemplo, ou de porto seguro nas horas difíceis.

Não está na descrição da minha posição, nem da minha colega, lidar com problemas de alunos. Existem escritórios especializados para isso. Mas o que é que se vai fazer se a pessoa se sente confortável aqui? Eu não me furto de tentar ajudar, de ouvir pelo menos, emprestar um ombro. A diferença de idade me dá autoridade bastante pra arriscar alguns conselhos. A clareza com que me lembro dos meus anos de faculdade me dão muita autoridade pra dar conselhos. E eles confiam.

Ontem uma aluna passou mal aqui no escritório. Quase desmaiou, ficou pálida, o diabo. Descobrimos que ela tem horror a médico e que chamar a ambulância só ia piorar tudo. Que fazer? Segurar na mão da menina a manhã toda, claro. E depois convencê-la a ir ao consultório médico no meu carro. Chegando lá: ah, uma de vocês tem que esperar aqui. A mãe tá no Alaska, o irmão na Califórnia. Que fazer? Segurar a mão da menina boa parte da tarde. Faz parte, não está escrito no contrato, mas faz parte. Se fosse filho meu eu ia gostar de saber que alguém ajudou.

Nessas horas que passamos tão próximas, conversamos sobre tudo: bebida, depressão, vida na faculdade, garotos, notas, perda de peso, comida, etc. Descobri que, por ter família longe, ela vai ficar sozinha no quarto no longo feriado que se aproxima. Quando eu digo sozinha, digo sozinha mesmo. No prédio, na universidade. Não fica uma alma viva por aqui. E eu morri de pena, principalmente depois de ouvir sobre os problemas que a assustam no momento. Lá vou eu de novo, segurar na mão dela o feriado todo. Conversei com o marido ontem e ele concordou. Se ela quiser, a gente leva ela pra onde for na próxima semana. Ninguém merece depressão aos 21 anos. Muito menos, quando não tem um ombro amigo por perto.

Salvador 2008 001

“The salt child walked further and further into the water of the great Ocean, dissolving with each step, and at the end exclaimed: ‘Ah, now I know who I am!’”

Uma vez que eu ja estava na descida do abismo mesmo, nao adiantava procurar galhos onde me segurar. Eu sempre soube que, pra ter a oportunidade de voltar a tona, eu precisava descer ate o fundo. So de la conseguiria me impulsionar de volta a superficie.

E ao fundo eu fui, sentada no chao da cozinha, sozinha, derramando as minhas lagrimas todas, me sentindo a mais solitaria das criaturas, a mais vazia, a mais abandonada. O choro, uma forma de lavar de mim os sentimentos todos, e comecar de novo, limpa.

Carinho do marido, afeto da amiga ao telefone, nada me alegrava. Nao havia sinal de sorriso nos meus labios.

Mas nao acabava ai a minha noite. Ela tinha me avisado que vinha. Chegou pra luta, ja sabendo, sem nem ter sido informada, do meu estado. Chegou armada de um presente feito com suas maos de fada e duas panelas de bacalhau. Arrumou a mesa, terminou de fazer o caldo verde que eu tinha deixado pela metade e ordenou que eu me pusesse bonita. Logo atras dela vieram uma meia duzia de tres ou quatro, eu nem sabia. Dividimos historias, mimos trazidos da minha viagem, bacalhau, caldo verde, muito vinho e Ginja pra finalizar. E eu terminei a noite exausta, sentada no chao da cozinha, de novo, tirando o salto e soltando os cabelos. Exausta e vazia, porque tinha despejado tudo naquele chao, antes de comecar a renovar.

Nao sei se acabou, nao sei se estou pronta. Mas a tristeza dos ultimos dias eu chorei inteira. E dei lugar pra alguma alegria.  Agora e’ hora de catar os cacos e colar tudo junto de novo, e ‘ hora de cuidar da vida, porque ha muito a cuidar. Se ela, a tristeza, vier de novo, hoje estarei mais forte, alimentada por todo o afeto que havia naquela bacalhoada, pelo carinho ao telefone, pela alegria ao redor da minha mesa e, sobretudo, pelo abraco amoroso antes de adormecer. Eu nao estou  sozinha.

Nota: Sempre que nao souber o que dar de presente de aniversario a uma pessoa querida, cozinhe quantidades enormes de um prato que seja a sua especialidade, se assegure de que a companhia e’ das melhores, de que o vinho e’ honesto, de que a noite ira madrugada adentro e eu te garanto: nao havera forma de amor maior.

image: google images

A aluninha de mestrado, inteligente pra burro, disse assim:

- Professor, mas o cenário da educação nos Estadunidos vai mudar, porque a atual economia vai fazer com que a quantidade de alunos diminua. Mas, veja bem, daqui a cinco anos (exatamente cinco), quando os alunos voltarem às universidades, será um publico diferente, bem minoria, bem afro-americano, bem latino.

E o vizinho de cadeira dela arrematou lindamente:

- E é justamente por isso que nós (tira meu nome da lista, capiau), estamos discutindo a necessidade da ação afirmativa nos dias de hoje. Brevemente, as minorias não serão mais minorias, e o branco não sera mais maioria.

Eu olhei ao redor e contei: 1 latina, 1 preto (em português a gente pode, né? ou não pode mais?), 1 chinesa e 16 brancos, incluindo o professor, que nada disse numa hora dessas. Eu não sei onde é que os mano ali do canto vivem, mas certamente não é no mesmo país que eu.

Deixa quieto que tá no fim da aula e eu tenho peixe maior pra matar em casa. Deixa o pessoal ir pra casa ouvindo Rush Limbaugh no radio do carro, que deve ser onde eles aprendem essas coisas fantásticas.

Explico: Sim, a população latina nos Estados Unidos está aumentando muito, mas está longe de ser maioria nas escolas particulares que eu e esses fofos frequentam. Cinco anos é muito pouco tempo pra que essa mudança tão radical aconteça. Eu não sei bem o que esse pessoal entende como universidade, certamente não são os centros de produção de diploma em massa onde os latinos e os negros se encontram.

Os professores das universidades americanas são brancos, os alunos são brancos, os profissionais de alto nível, os que trabalham perto do presidente e que realmente tomam as decisões são brancos. E homens.

A presença do jovem negro na cadeia, essa sim, ainda é altíssima. A quantidade de negros que ingressam na universidade pode até ser significativa, mas os números enganam os menos interessados em olhar mais adiante. Os negros também tem um alto índice de desistência. Isso acontece porque os programas sociais são muito bons, criam oportunidades para o adolescente de cor, pobre, ir pra universidade. Mas as escolas de segundo grau do bairro onde ele mora são péssimas, o cara não aguenta dois anos. E quem há de dizer que ele se sente à vontade com aquela gente branca, de classe média-alta, que não sabe da vida dele sequer o começo?

O número de negros em escolas pra negros, segregados, ainda é muito alto. O número de brancos em escolas pra negros, muito baixo. E eu não estou dizendo que as universidades negras (HBCUs) não são boas, elas têm um papel essencial na história desse país. Mas é segregação, ou não é?

Quando você ouve alguém insinuar que a ação afirmativa não é mais necessária, pode apostar, é um branco falando. Eu nunca vi um negro se dar por satisfeito, se achar bem representado, e dizer que a ação pode sair de cena. Nem depois de Obama.

Outro dia, na aula de outra matéria, alguém disse que a informação está aí pra todos, que o papel do professor de segundo grau é dar o conteúdo em classe e informar os alunos sobre as oportunidades. Ela ignorou completamente os professores que colocam os alunos pra baixo. Os que aconselham os alunos de cor a pegar matérias mais fáceis, que não ajudam em nada no acesso à universidade. Há ainda os que aconselham os alunos de cor a pegar matérias profissionalizantes, que aumentam a possibilidade de encontrar um emprego, pro caso de precisar. Isso tudo, aliado ao fato de que o ambiente em casa não deve ser lá muito propício, torna as coisas muito difíceis pra esses adolescentes.

Por essas e outras coisas, nos Estados Unidos que eu conheço, não acredito que  os negros e latinos serão maioria na universidade não, viu? Não em cinco anos. Ainda precisamos muito da ação afirmativa como movimento de mobilidade social.

Hoje é aniversario do meu pai.

Liguei de manhã, ele tinha saído muito cedo, tinha ido pra uma área rural, celular fora de área. Empregada nova, pergunta quem é. E’ a filha dele. Ela respondeu: “aaahhh”.

Não esquece de dar o recado, não sei a que horas poderei ligar de novo. Por favor, não esquece. A empregada antiga me conhecia, pra ela eu tinha nome. Mas, ao falar com alguém estranho, volto aos dez anos de idade, quando eu era “a filha dele” e, tanto pra mim quanto pra ele, a identificação bastava.

Pobre da menina, nem me apresentei. Nem falei oi, nem fui simpática. Tomou conta de mim a arrogância que tinha na infância e na adolescência. Arrogância só compreensível numa filha única. Arrogância só exercida em relação ao pai, nunca em relação à mãe. Esqueci que há muito eu não sou “a filha dele”, que há muito fui ganhando irmãos e perdendo a importância. Todos eles, do jeito deles, mais presentes que eu. Será que ele falou de mim pra nova empregada?

Já não sou mais “a filha dele”. Nem sei se ele se importou de eu só ter ligado outra vez às dez da noite, quando cheguei da aula. Não sei se se importou de eu ter falado com ele por apenas dois minutos, a pausa que meu marido me deu na ligação de trabalho que tinha com a China. Não sei se ele lembra de mim, se pensa em mim quando coloca a cabeça no travesseiro. Se sabe de mim, da minha vida, do que eu faço. Mas não importa, foi aniversário dele e nós nos falamos por dois minutos. Fiz o que de mim era esperado. Liguei. Sou eu, pai, a filha que você vê uma vez ao ano, a primeira, a eterna filha única. Lembra de mim?

Feliz aniversário, pai.

Passei o fim de semana prolongado sentindo saudades. Cada hora era saudade de uma coisa ou pessoa diferente, mas todas elas situadas na Bahia.

Ontem cismei que o céu azul que tomava conta de Rochester parecia com o céu de Outono de Salvador. Era um azul de fim de tarde, um azul de Solar do Unhão, com um toque de Porto da Barra. A temperatura, quente mas agradável, era igualzinha a de lá nessa epoca. Ken não concordou. Claro que não. Não mora no coração dele a dor quietinha que mora no meu, a dor que de vez em quando desperta e vem me fazer triste. Nessas horas, tudo faz lembrar o lugar de onde vim.

Hoje acordei ainda mais triste e liguei pra algumas pessoas que me são caras, não encontrei ninguém em casa. Era feriado tanto aqui quanto lá. Não adiantava falar com a mãe, não era saudade de mãe. Era saudade  dos meus amigos, de mim mesma, de ser como era antes. Saudades de ser uma pessoa que já nem sou mais.

Mais pro fim da tarde abri pela primeira vez o livro de Sophia de Mello Breyner Andersen, a coisa mais linda e significativa que comprei em Portugal. Chama-se “Dia do Mar”. Nada por acaso, bem na página que abri, estava lá, a  minha poesia favorita em toda a obra de Sophia:

“Mar sonoro, mas sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só pra mim.”

Percebi então que tinha saudades era do mar, e chorei. Chorei a minha dor inteirinha e, com os olhos inchados, fui estudar. Como diz  a minha vozinha: o que não tem remédio, remediado está.

Sempre que chego aos Estados Unidos, vindo de outro país, a primeira coisa que noto é como os americanos se vestem mal.
Ainda no aeroporto dá pra perceber a falta de interesse que eles têm nas roupas que vestem. Calça cáqui com camisa pólo pra trabalhar, bermuda cáqui com camiseta branca pra passear. Casais que se vestem do mesmo jeito, com crianças que são a cópia deles por toda parte.
Morando aqui, a gente acaba se acostumando com essa maneira básica de ser e até aderindo um pouco. Mas eu confesso que prefiro estar num lugar onde as pessoas são mais interessantes de olhar. Lisboa pode não ser a meca da moda, mas as pessoas lá se vestem bem, usam cores, parecem mais alegres. Eu fiquei decepcionada quando cheguei ao aeroporto de Philadelphia ontem e me deparei com a cena cáqui.
Paciêcia, pelo menos eu posso vir trabalhar sem me preocupar em ficar me arrumando muito.

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