Bacalhau

Você às vezes vai pra cozinha só porque está com vontade, fecha a porta (se houver porta) e começa a fazer alguma coisa realmente trabalhosa, com várias etapas e ingredientes? Algo que toma quase todas as suas panelas, cada centímentro da sua bancada e enche a lavadora de pratos (ou a pia) umas duas vezes? Algo que demanda cada gota da sua atenção, toda a sua paixão, seu coração inteirinho e sua alma?

Algo que você faz só por fazer?

The Kitchn perguntou e eu respondo: SIM, com vontade, com amor, várias vezes, sempre me que dá na telha.

Ilustrando o post, a minha primeira fornada de bacalhau com batatas. Não é um prato que me consuma tanto, mas precisou de amor e da minha alma inteira, porque até então só a minha mãe fazia pra mim.

Pideiti: eu juro que a foto tava linda, mas fui usar o Windows Live Writer e ficou desse jeito. &^%$#@!

As imagens falam por si. O senhor Serra mandou a tropa de choque intervir na manifestação dos estudantes da USP. Bombas de gás lacrimogênio, sprays de pimenta, bombas de efeito “moral”, que por acaso causam ferimentos físicos. Alunos, professores, jornalistas, todo mundo que tentou intervir foi agredido.

Vergonha, muita vergonha.

USP

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Posts com diversos assuntos, com bullets ou linhas separando os diversos topicos ta na ultima moda, sabia nao? Pois e. Nao tem mais esse negocio de escrever paragrafos sobre uma coisa so. Quem tem tempo pra tanto raciocinio? O negocio agora e tweetar no blog. Mas porque nao se tweeta no tweeter? Porque nao se tem paciencia, ora bolas.

  • Estamos, nos e eles, de passagens compradas pra Lisboa, em Agosto. E estamos muito felizes, obrigada. A expectativa e tanta que eu estou com medo de Lisboa decepcionar. Nao no quesito cidade bonita, comida gostosa, museus legais. Mas no quesito cenario perfeito para nosso encontro. Porque Roma, voces sabem, nao teve defeito. Ate cantamos pelas ruas, e dancamos, feito duas idiotas. Costa Amalfitana foi um luxo. Agora vamos la, as duas, pra Portugal. Num ponto eu ja sei que estamos levando vantagem, considerando o defeito dela de so gostar de bebida doce, a gente vai lavar a alma com vinho do porto. O resto e detalhe.
  • Pesquisando uma coisinha e outra por ai descobri que, na lingua inglesa, o Tejo se chama Tagus. Eu nunca vi uma traducao mais chula na minha vida. Como se pode abandonar a sonoridade de Tejo pra falar Tagus. Esse povo nao entende mesmo do assunto. Se eu dominasse o mundo, nao seria permitida a traducao dos nomes dos lugares, das coisas e das pessoas.
  • Falando nisso, eu nao gosto desse costume que os estudantes chineses tem de mudar o nome pra qualquer coisa em ingles, antes mesmo de chegarem aos EUA. Os documentos do cabra dizem Yang Xichong e ele se identifica ao telefone como Jonathan Yang. Pela madrugada, eu tenho la obrigacao de saber com quem estou falando? So pode ser complexo de inferioridade, resquicio do tempo em que os americanos era os tais. Ja que vao dominar o mundo mesmo, porque nao fazer o povim todo aprender chines? Pelo menos me poupa de ter que chamar Qin Zang de Theresa. Pelamadrugada.
  • Falando em estudante, meu enteado mais novo, o Jordan, 19 aninhos de malandragem, esta pensando em vender a alma as forcas armadas americanas. Eu mandei ficar de castigo num cantinho escuro, com a porta trancada, ate a vontade passar. Expliquei pra ele que a terceira guerra mundial ta vindo ai. Falta de aviso nao foi. Nossa senhora protetora das madrastas boas (tem santa que protege essa especie de gente?), nao permita que eu gaste meus dias (e noites) me preocupando se esse menino ta matando gente ou sendo morto na guerra de nao sei de onde. Juju, da pra gente ir a Fatima? Preciso fazer umas promessas pra salvar a alma dessa criatura sem juizo.
  • Voltando a Portugal, eu nao vejo a hora de passar as madrugadas a beber e chorar num bar daqueles onde se tocam fado. Oh negocinho deprimente mas que vicia. Juju me mandou video desse homem e agora eu to apaixonada por ele. E possivel tanto drama, minha gente? Imaginei nos duas e os enfadados maridos ( pun intended) com a cara cheia de Porto, chorando e cantando, na mesa do canto de algum bar pe sujo. Dai Juju me pergunta: Carlita, porque choras? E eu: Nao sei, Juju, deve ser a minh’alma portuguesa que esta a aflorar.

E com essa nota romantica, vou-me. Eu tinha varias outras bullets pra falar mas, como voces veem, eu nao sei tweetar, eu escrevo demais. Voces fiquem por ai com essas bulletinhas de nada que eu vou colocar um fado na vitrola e beber um vinho verde com meu gajo.

female

“Casamento é um degrau que a pessoa tem para caminhar para a frente. Quem opta por ficar sozinho não desenvolve aprendizados que o casamento dá. Apanhar cueca suja que o marido deixa no chão é um aprendizado de paciência e dedicação. As pessoas pensam em união apenas como o espaço da alegria, do conforto”

A pedrada acima foi atirada por Maria Mariana, aquela menina fofa, que brincava de ser adolescente. No seu novo livro, sobre a maternidade, M.M. posa de expert no papel de mãe e de mulher. Outras bobagens como essas estão por aí, tiradas do livro ou de entrevistas com ela. Vários blogs estão discutindo o assunto. Eu deixo às mulheres que são mães o prazer de dar umas lições virtuais a essa menina, que não teve a sensibilidade de poupar sequer as vítimas de depressão pós-parto. Me concentro aqui nos absurdos que ela disse sobre o papel da mulher na sociedade.

Segundo M.M., pra ser mulher de verdade, a gente tem que casar, apanhar cueca suja no chão, deixar que o marido dirija a nossa vida, ter filhos de parto normal, amamentar e ficar em casa com eles dez anos. Na questão de amamentar, ela frisa que só a quem merece será concedida a graça. Ou seja, na hora h, se não tiver sido uma boa menina, nada de leitinho. Punição, gata, no melhor estilo católico de ser.

Sabe o velho sentimento de culpa e inadequação que atinge tantas mulheres ao saberem que não podem gerar filhos? Ao ouvirem o tempo todo de amigos e parentes que precisam casar, ter família, quando preferem viver sozinhas? M.M. capitaliza nesses sentimentos e tantos outros pra vender livro. Que vergonha. Eu tenho pena das suas filhas, de crescerem num ambiente onde o papel da mulher sofre um retrocesso de pelo menos 20 anos. O que eu desejo é que elas sejam fortes o bastante pra se libertarem dos absurdos que a mãe lhes ensina.

De acordo com a pregação da santíssima M.M., eu sou uma mulher por demais inadequada ao meu papel, ao papel que deus escolheu pra mim. Segundo ela, deus quer o homem no comando, porque o homem é mais frio pra tomar decisões, enquanto a mulher é boa conselheira. Isso é porque ela ainda não me conheceu, porque eu não jogo bem na retranca, não. Eu prefiro estar no comando do meu corpo, da minha vida, da minha carreira, do meu caminho. E eu não cato cueca de ninguém. Até porque ele, ainda bem, foi educado por uma mãe muito inteligente, pela cabeça dele sequer passa a idéia de que eu vá catar o que quer que seja. E se eu não tenho filhos, a minha experiência tem servido pra educar minha mãe. Isso porque ela, que foi educada por mãe, avó e tia que pensavam como M.M., tem aprendido muito em como viver melhor através da filha.

Finalmente, a mocinha também resolveu dizer que o feminismo “teve seu momento, foi fundamental para abrir espaços, possibilidades. Mas as necessidades hoje são outras.” Quanto a isso, eu penso que, enquanto houver gente como M.M. educando indivíduos, o feminismo ainda tem um trabalho árduo a realizar.

Foto daqui.

Existe vida após os trabalhos de fim de semestre, como já disse a Camila.

A minha consiste em chegar do trabalho e me servir de um drinque pra relaxar. Durante o jantar, um (dois, tres) copo(s) de vinho pra acompanhar e depois sentar na varanda pra ler um livro não acadêmico tomando um digestivo. Alcóolatra, eu? Ich! Tu ta pensando que isso é muito? Espera até eu chegar na Florida, daqui a duas semanas. Porque quando tem praia aí a coisa já degringola pras caipirinhas, pras margaritas e tudo o mais. Afe!

Agora sério, sem brincadeira. Minhas férias são tão curtinhas que eu nem faço muita questão de sair de casa. Só em ter a oportunidade de ver o sol entrar pelas janelas abertas da minha cozinha, ter tempo pra cozinhar a minha própria comida, bater papo com meu marido, ler um livro que eu escolhi e não ter que estar confinada no escritório, na frente do computador, já está de bom tamanho.

A felicidade é um negocio facinho, vou te contar. A receita é uma só: perca a liberdade de fazer as coisas que você gosta, fique muito, muito ocupada. Depois volte à vida, numas férias curtinhas, ao mesmo tempo em que a primavera está bombando lá fora e o sol quentinho vem te fazer compahia. Tu vai ver como fica tudo lindo e maravilhoso. Até daqui a alguns dias, quando começa tudo de novo, mas aí você já se divertiu horrores.

A pessoa sabe que está sozinha no mundo quando levanta da cama e faz a própria gemada. Porque, convenhamos, gemada é coisa de mãe, todo mundo que tem mãe sabe disso. No máximo, a avó tem o direito de fazer quando a mãe esta ausente, temporaria ou permanentemente. Tia não faz gemada, marido deus me livre, vizinho ave maria. Sem condições.

Veja bem, você leitor já sabe que eu não acredito em nada. Eu não acredito nem na primavera, e ela vem todo ano e me pega no susto. Como é que eu ia acreditar em gemada? O que é que tem naquele copo fumegante de gema de ovo (argh!), mel e leiteh quenteh (claro, porque todo mundo devia falar leite quente como os paranaenses falam, acho lindo) que vai tirar você do perrengue em que está? Nada, meu filho, é tudo folclore.

O que livra a gente de morrer de uma dor de garganta infernal, acompanhada de febre e entupimento geral das vias respiratórias é o carinho de mãe. Vai dizer que você não sabia disso? O barulhinho do garfo batendo na caneca, o cheirinho do leiteh quenteh derramado no fogão, os passinhos dela se aproximando do quarto e, finalmente, aquela mão quentinha que segura a sua cabeça moribunda e te faz tomar tudinho. Isso é que cura! Que gemada o quê?

Então, quando voce estiver lá na casa da…. onde filho chora e mãe não ouve, não se apresse em fazer a sua própria gemada. Não vai adiantar nada. A não ser que ela te ligue três vezes no dia, a mãe, e te encha o saco pra fazer a merda da gemada, até o ponto que voce perde a paciência e vai, no telefone mesmo, fazendo a gemada pra que ela ouça o tilintar do garfo na caneca. Daí que ela te manda pra cama já, faz questão de saber se você está usando um cobertor grosso (porra, 68ºF lá fora) e te faz tomar tudinho, sem desligar o telefone.

Enquanto você engole aquela vitamina de colesterol, ela te diz gracinhas ao telefone, feito se você tivesse cinco anos de idade outra vez, e você chega muito perto de acreditar que vai ficar bom. Só falta a puxadinha no cobertor e o beijinho na testa. Amanhã eu estarei melhor.

E foi assim que eu fiz minha gemada ontem à noite, e tomei tudinho, com barulhinho no final pra ela ouvir do outro lado.

Boa noite, mãe.

Está um lindo dia de primavera lá fora. O sol brilhante, a água do laguinho do condomínio limpa e calma, os patinhos passeando, os passarinhos cantando e, sobretudo, as plantas renascendo.

Primavera de verdade eu só conheci faz uns oito anos, quando mudei pra cá, e me apaixonei por ela. Todo ano nós esperamos ansiosos por esse momento, quando colocamos os casacos de inverno lá no fundo do armário, jogamos as botas lá no porão, colocamos sandálias e casaquinhos leves e saimos pra caminhar de mãos dadas.

Mas é tambem final de semestre, e eu tenho vários trabalhos pra entregar nos próximos dias, não tenho tempo pra caminhadas, nem pra ir ver se os ovos de pato lá fora já viraram patinhos, nem pra limpar o jardim que já se mostra rebelde, nem pra sair pra escolher as plantas que adicionaremos esse ano. Ele foi sozinho, andar, sem ninguém pra dar a mão. Provavelmente irá sozinho à loja de plantas também. As aulas só terminam dia 5 de Maio.

Mas está tão perto. Well… eu acabei de me inscrever em duas matérias de verão. As aulas começam dia 18 de Maio e só terminam dia 7 de Agosto.

A primavera, a minha estação favorita, não mais me pertence. Nem o verão me pertence mais.

Sabe aquele café de acordar urso polar? Tomo de manhãzinha. E à tarde. Tenho ímpetos de tomar à noite também.

O fato é que há trabalho, há muito trabalho escolar, muito formulário pra preencher e documentação pra entregar. Mas não há muita vida, não dá tempo.

24 me deixa pilhada. Escrevi feito uma louca depois de ver Jack Bauer mandar ver nuns malandros, e quando parei queria falar. Muito. 24/7 é o que eu preciso. Vou casar com Kiefer até terminar o mestrado.

Esse fim de semana eu li uma matéria no NY Times sobre a relação dos jovens com o facebook. Se você não lê ingles, deve ter alguma tradução na web.

A idéia central é que os adolecentes de hoje vivem um tipo de presente misturado ao passado, de forma que eles não desconectam. E’ meio que levar seus amigos da escola pra participar de sua vida universitária e, mais tarde, de sua vida adulta. O resultado é que tem sempre alguém te puxando pra trás, pra o que você era antes. E aí eu fiquei pensando na minha adolescência, em como me afastar dos amigos de determinada fase foi importante pra que eu me permitisse mudar e, assim, crescer.

A maioria dos meus colegas de escola foram direto pra universidade fazer medicina, engenharia, direito e essas coisas todas que fazem papai e mamãe se sentirem orgulhosos. Eu faltei ao vestibular da Universidade Federal da Bahia e fui a um Porto da Barra vazio e tranquilo. Como sempre encontrei as respostas pros dilemas da vida nadando naquelas águas, descobri que queria trabalhar e ser independente. Nao riam, por favor, eu já cuido de rir de mim mesma, o tempo todo.

Naquele tempo, era fácil desaparecer do mapa. E foi o que eu fiz. Mesmo morando na mesma cidade que meus colegas, eu nunca os encontrava. O universo dos que não estudam na federal nunca cruza com os que fazem… sabe-se lá o que fazem os que não estudam na federal. Pelo menos, era assim no meu mundo. E me servia porque, embora eu não me arrependa daqueles anos, é embaraçante se tornar um adulto, é embaraçante crescer e, se você está fazendo isso de forma não-tradicional, tanto melhor que o faça sozinho.

Imagino-me hoje, numa era em que as pessoas usam o  facebook e outros aplicativos pra anunciar pro mundo o que comeram no jantar, que transaram ontem à noite e com quem, que entraram em tal faculdade, que suas notas são altas ou baixas. Será que eu teria tido a coragem de quebrar a minha cara sozinha, como havia escolhido? Teria tido vergonha de me formar aos 25 anos e nao aos 21? Não consigo imaginar uma vida patrulhada por pessoas que deveriam pertencer ao meu passado, com alguém sempre me lembrando que eu não era assim, que eu era asssado, quando eu só estava experimentando.

Eu arrumei outros amigos, aqueles do mundo dos que trabalham cedo porque nao tem grana pra ir pra faculdade, mas encontrei muita gente que, como eu, queria viver outras experiências. Eventualmente, muitos de nós acabaram voltando a estudar e, naturalmente, nos separamos, indo em busca de outro universo de pessoas.

Dez anos depois eu estava pronta pra me reunir com a minha melhor amiga do segundo grau, e tem sido uma relação muito feliz. Hoje sabemos que não teriamos suportado aqueles anos juntas, que a separação foi importante e necessária. Nós gostamos de nos conhecer desde que tinhamos 15 anos, mas sabemos que somos muito melhores agora.

As vezes é preciso tirar uns amigos do caminho, encontrar outros, e se livrar desses outros ainda, se reinventar como alguém diferente e fazer tudo isso sozinho, porque crescer dói e tem gente que quer sentir a dor quietinho no canto. Eu gosto de lembrar da minha pessoa entre 15 e 20 anos anos pra aprender com os erros dela, mas eu não quero conviver com ela, nem com ninguém que me fale da sua existência.

Kuduro, Psirico, Cole na Corda, Fantasmão.

Eh, Bahia criativa da peste. Dá gosto de ver. Aqui.

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